" GUERRILHA URBANA "

                   

                             Fazia muito frio naquela noite.
                             A melhor coisa a se fazer era mesmo tomar um chocolate quente, na lanchonete do Tadeu.
                             Haviamos saído a poucos dias do Exército. E, só queríamos fazer uma espécie de despedida saudável.
                             Éramos cinco amigos sentados em uma mesa ao canto, conversando e rindo ao relembrarmos certas passagens hilárias que havíamos vivido, tão recentemente.
                             A cada hora um contava um fato acontecido com um dos outros, que era motivo de riso,e zoação geral.
                             Cada história era entrecortada por outra, e às vezes o final delas, que todos conheciam, nem chegava a ser contado.
                             Como a nossa reunião já durava quase uma hora, resolvemos pedir uma pzza.
                             E foi quando o Silva se levantou para ir falar com o Tadeu, que o inesperado aconteceu.
                             Como o lugar estava cheio, ao passar por uma mesa onde uns rapazes tomavam algumas bebidas, o Silva, sem querer, esbarou na cadeira de uma das moças que os acompanhava. A bebida que estava nas mãos dela derramou e molhou-lhe a calça.
                             Não ouvimos discussão. Creio que não houve.
                             Só vimos quando o Silva se virou em nossa direção e, como a pedir ajuda e tendo uma expressão de surpresa no rosto,simplesmente caiu ao chão com as mãos à barriga.
                             O rapaz que estava ao lado da moça, sem discutir,simplesmente fincou o garfo, que estava em sua mão, no abdômem do Silva.
                             O tumulto foi geral. E, nesta confuzão o agressor aproveitou para fugir do local.
                             Quando conseguimos chegar onde o Silva estava, dois de nós deu prioridade em socorrê-lo.
                             Os outros dois em se certificar que mais nenhum do grupo, daquela mesa, se evadisse
 do local.
                             O Silva demorou quase dois meses para se recuperar.
                             O rapaz que o agrediu foi somente fichado, e liberado.
                             Depois de meses no Exército nos preparando para defender "civis indefesos", vimos que agora tinhamos que nos preparar para nos defendermos destes mesmos "civis indefesos".
                           
                   

" O ANÔNIMO "



                              Não percebi de onde ele veio.
                              Quando vi le já se acentava ao meu lado, no banco do ponto de ônibus.
                              Uma parada qualquer em uma pequena cidade perdida, nos confins da Bahia.
                              Olhou a enorme mochila ao meu lado, e perguntou:
                           - Indo, ou vindo?
                       
                           - Como?indaguei.
                       
                          - Tá chegando, ou tá partindo?
                       
                          - Ah! Partindo.
                       
                          - Por que?
                       
                          - A firma em que eu trabalhava teve que fazer um "enxugamento", e os mais novos "dançaram". Cê sabe como é né, a crise.
                       
                          - Tá muito triste?- me prguntou.
                       
                          - Tô. Queria voltar pra casa como bem sucedido...
                       
                          -Ora,cortou ele,não vejo fracasso em quem busca o que quer. Vejo fracasso em quem espera pelo que quer, sem lutar para consegui-lo. Sem ir atrás de seus sonhos.
                             A estrada para seu objetivo pode ser longa. Mas, sua caminhada até aqui já diminuiu a distancia entre ele e voce.
                            Ainda que hoje este tropeço lhe pareça amargo, toda experiência é válida.
                            Oh, meu ônibus. Boa sorte.

                            E se foi, sem nem mesmo me dizer seu nome.
                            Ainda hoje me lembro dele, e lhe agradeço as palavras que me disse aquele dia,naquele momento.