" MEU PAI E O TUBARÃO "

                       

                            O sol que fazia naquele domingo só poderia estar nos convidando para ir a um lugar para passear: à praia.
                            E não deu outra.
                            Meu pai checou o seu "possante" Gordinni e mandou que nos aprontássemos.
                           E lá fomos nós.
                           Ir à praia sempre nos trazia a expectativa de comer milho verde, chupar picolés e brincar nas suas areias quentes ...e suas águas geladas.
                           Minha mãe tinha como papel determinar o perímetro em que podíamos nos movimentar.
                           Já meu pai tinha outro esquema.
                           Chegava, dava umas braçadas próximo à orla e, quando sentia que seus músculos estavam aquecidos, rumava para águas mais profundas.
                            Seguia em direção a uma ilha distante uns trezentos metros da praia.
                            Naquele domingo não foi diferente.
                            Nestas horas eu ficava em pé, à beira d'água, observando-o se afastar com suas braçadas bem ritmadas, precisas e tranquilas.Imaginando o dia em que eu o acompanharia à uma exploração pelas ilhas distantes.
                            Até hoje admiro o jeito como meu pai nada.
                            Porém, naquele dia aconteceu algo diferente.
                            Quando restavam uns cem metros para o meu pai chegar à ilha, algumas pessoas em um barco começaram a gesticular, deseperadamente, em sua direção e lhe gritar que se afastasse rapidamente dali.
                            Meu pai então aumentou, consideravelmente, o ritmo de suas braçadas, e seguiu para a parte da ilha que lhe estava mais próxima .
                            Só que, a parte da ilha que lhe estava mais próxima era composta de muitas pedras. E, estas pedras eram totalmente cobertas por ouriços.
                            Para lhe complicar a situação ondas muito fortes arrebentavam nessas pedras.
                            Ou seja, não havia pior opção de acesso que aquele ponto.
                            Por isso, todas as vezes que meu pai firmava as mãos nessas pedras e tentava puxar o corpo para fora do mar, vinha uma onda mais forte e o arrastava de volta para suas águas agitadas. E, neste arrastar suas mãos e pés eram perfurados pelos ouriços. Seu peito e baços rasgados pelas pedras.
                           A muito custo meu pai conseguiu se safar daquela situação.
                           Quando por fim retornou à praia, com várias pessoas querendo saber o que acontecera lá, ele nos disse que: ao se aproximar da ilha para contorna-la e chegar à enseada pela qual sempre a acessava as pessoas de um barco próximo começaram a apontar em direção às suas costas e a gritarem-lhe:"o peixe.O peixe. Rápido, se afasta."
                           Ora, como dois dias antes ele nos havia levado para assistir ao lançamento de: "Tubarão, o filme", imaginou que o tal "peixe" fosse um tubarão. E que o mesmo estava se aproximando rapidamente pelas suas costas.
                           O desepero tomou conta de si e, sem olhar para trás, tentou sair o mais rápido possível da água.
                           Porém, quando saiu e sentou-se nas pedras para recuperar o fôlego, já todo dilacerado, e olhou para as pessoas do barco que lhe haviam "salvo", para agradecer-lhes, viu que não passavam de pescadores.E que, em seu tranquilo nado, ele estava indo em direção do cardume que eles tentavam apanhar com suas redes.