" A BIC "

                          Sou canhoto. Sempre fui.
                          Totalmente canhoto.
                          Por isso, quando criança tive muita dificuldade na escrita com canetas. Pois as únicas que existiam , no meu início de escola, eram as canetas-tinteiro.
                          Geralmente canhoto escreve deslizando a mão por cima da escrita récem feita.
                          Este é o meu caso.
                          E, as canetas-tinteiro, precisavam de um "mata-borrão" para tirar o excesso de tinta do papel. E, como canhoto, eu já esparramava a tinta com minha própria mão, tão logo acabara de escrever.
                          Meu pai não se conformava em ter um filho canhoto.
                          Tentava me obrigar à ser destro. Mas, por mais que eu me esforçasse, não conseguia.
                          Um dia, voltando da escola a pé, vi, numa praça da cidade, um tumulto diferente do normal.
                          As pessoas estavam maravilhadas com alguma novidade, fantástica.
                          Curioso, me aproximei.
                          Então, vi uma das coisas mais incríveis em minha,até ali, curta vida.
                          O fim dos "pescoções", hoje se diz "pedala", que meu pai me dava na nuca para me forçar a ser destro.
                          Um homem vendia uma tal de "Bic", que escrevia um caderno inteiro.
                          E, ele provava isto rabiscando não um, mas vários cadernos, com a mesma caneta.
                          Verdade. Eu vi.
                          Era mesmo incrível.
                          E mais, nem precisava reabastecê-la no estôjo-tinteiro.
                          Aliás, ela nem possuia um.
                          Ele passava a mão por cima da escrita tão logo acabava de escrever.
                          O vendedor disse que ela era "ESFEROGRÁFICA".
                          Ééé! Ela tinha uma bolinha na ponta, que pelo que eu entendi, era igual nossas bolinhas de gude, só que bem piquiquitinha, que controlava a saída de tinta.
                          Disse também que ela tinha um canudinho dentro, que era como se coubesse um tinteiro inteirinho lá.
                          Ahhh! Eu quis uma.
  
                      

' UM DIA DIFÍCIL "

                 
                        Dizem, e sou obrigado a concordar, em que há dias que o melhor a se fazer é não sair da cama.

                        Naquela manhã eu deveria ter desconfiado. Pois logo que levantei dei uma "bicuda" no portal do meu quarto.
                        Mas o dia estava apenas começando.
                        Tomei o meu café, e saí para a escola.
                        O dedão do pé ainda me doía, pela pancada no portal, por isso eu mancava um pouco.
                        Apesar disso resolvi seguir à pé até a escola, cortando caminho pela estação de trem.
                        Era outono e a paisagem me agradava. Pois, em certa altura do caminho descia, do alto de um corte de pedra, um grande volume d'água, como se fosse uma cachoeira. Mas que na verdade não passava de um vazamento numa tubulação, que alimentava as ricas casas dos engenheiros, mais acima.
                        Era gostoso molhar cabeça e braços naquela água, e percorrer o resto do caminho molhado e refrescado.
                       Só que para acessar este atalho tínhamos que passar por um buraco feito no muro que dividia os limites do bairro, com a estrada de ferro.
                       E quando me aproximei desta passagem avistei, deitado próximo a ele, um enorme cão.
                       Ora, após um cãozinho me ter feito quebrar o braço, anos atrás, qualquer outro semelhante seu me parecia um ser hostil.
                       Não havia como eu recuar e evitar passar por ele. Pois, ao decidir ir a pé, perdera o ônibus, que já havia passado. E eu não podia me atrasar pois haveria prova na primeira aula.
                       Derrepente tive uma brilhante idéia : " Um pouco antes do cão eu pulo o muro."
                       E assim pensando fui caminhando, já com as pernas bambas e o coração palpitando descompassado, na mesma calçada onde o infeliz, pouco à frente, me aguardava.
                       Só que, antes que eu chegasse ao ponto onde eu havia determinado, o cão se levantou e olhou em minha direção. Numa postura ameaçadora de quem pensa : " Õba! Lá vem diversão."
                       Instantaneamente, ou instintivamente, não sei dizer, meus pés pararam de caminhar.
                       Meus nervos congelaram.
                       Uma vontade, danada, de mijar pernas abaixo, me invadiu.
                       Não sei se eu subi no muro porque o cão se movimentou, ou se o cão se movimentou porque eu subi no muro.
                       A ordm dos fatos não sei precisar, apenas que, que, quando eu vi, eu já estava em cima do muro com o cão, logo abaixo, latindo e pulando, tentando me alcançar.
                       Só que, o topo do muro era esquinado,em ângulo, o que me impossibilitava de ficar equilibrado sobre ele. E, sendo assim, tive que me jogar para o outro lado dele, para não cair na calçada onde o cão estava.
                       O ponto em que eu fôra obrigado a escalá-lo dava para o pátio de uma escola municipal. E, foi em seu pátio que eu caí.
                       Recolhi minhas tralhas de escola, que se esparramaram pelo chão.
                       Agora, além do dedão, os braços e barrigas estavam ralados, pelo muro e pela queda.
                       Atrvessei todo o pátio e pedi ao porteiro da escola que me deixasse sair.
                       Voltei para casa.
                       Perdi meu dia de escola.
                       Perdi a prova.
                       Tomei uma surra.
                       Fiquei de castigo.
                       Naquela manhã eu deveria ter desconfiado. Pois, logo que levantei dei uma "bicuda" no portal do meu quarto.
                       Na próxima vez,jurei à mim mesmo,arrumaria uma doença.

                       Dizem, e sou obrigado a concordar, em que há dias em que o melhor é não sair da cama.