Jonas e Henrique sempre foram amigos.
Cresceram juntos, na mesma cidade. No mesmo bairro. Na mesma rua.
Estudaram na mesma escola.
Trabalham na mesma empresa.
Numa mesma função.
Jonas e Henrique se casaram, e suas esposas,assim como eles, se tornaram grandes amigas.
Jonas e Henrique foram morar num mesmo condomínio.
Jonas e Henrique moravam no mesmo prédio. Dividiam a mesma garagem.
Para facilitar a manobra dos carros, quando um dos dois precisasse sair e o outro não estivesse, pois os carros ficavam em posição de fila, cada um tinha a chave do carro do outro.
Mas quiz o destino que Jonas e Henrique não torcessem para o mesmo time. E um dia, após a decisão do campeonato estadual em que o time de um ganhou, e o do outro perdeu... os dois brigaram.
E foi por isso que daquele dia em diante, durante seis longos meses, um começou a infernizar a vida do outro.
E, por mais que suas esposas se esforçassem para conseguirem a reconciliação dos amigos... nada conseguiam.
Um dia Jonas retirou o carro do ex-amigo da garagem, para que pudesse sair com o seu.
Mas, ao tentar ligar o seu, Jonas ouviu um estranho som vindo do motor.
Preferiu, então chamar um mecânico para verificar o que estava acontecendo.
Seu carro seguiu a reboque para a oficina.
Jonas teve grande prejuízo, pois alguém havia preparado seu carro para "pifar", assim que ligado.
Jonas então suspeitou, imediatamente, do ex-amigo.
Jonas e Henrique entraram em batalha judicial para resolver a questão.
Jonas dizia que fora Henrique.
Henrique se dizia inocente.
Dias depois encontro Henrique que me diz, olho no olho, e sem gaguejar, que jamais faria tal coisa contra alguém.
Que acreditava que Jonas havia sabotado o próprio carro, e se fizera de vítima.
Meses após encontro, agora, Jonas que, retornando ao assunto, me diz, olho no olho e sem gaguejar, que não tinha dúvida da culpa de Henrique.
E me pergunta se eu tinha dúvida de quem era o culpado na história.
Eu então, por ser amigo dos dois, e me sentindo numa "sinuca de bico", tive um vislumbre dos julgamentos do rei Salomão, e lhe disse :
- " Eu ouvi a versão de Henrique, e não acho que ele seja o culpado.
Agora voce me conta a sua versão... e eu acho que voce, também, não é o culpado."
Ele me olha sem entender como, numa disputa de dois, os dois podem estar falando a verdade.
Aí eu prossigo :
- " Esta é uma questão que não envolveu apenas duas pessoas, mas duas famílias.
Voce chegou a pensar na hipótese de, após tantos esforços de suas esposas, que continuam sendo amigas, em reconciliá-los, o que levou meses afora, elas tenham resolvido que : "Se não conseguimos a paz unindo-os, por que não consegui-la separando-os de vez ?
Afinal de contas agora cada um vive em paz no seu canto."- concluí -
Ele ficou em silêncio por um tempo. E, após refletir um pouco sobre o que eu falara, me olhou com um leve sorriso no rosto, e disse :
- "Voce é o diabo."
E soltou uma estrondosa gargalhada.
" GUERRILHA URBANA "
Fazia muito frio naquela noite.
A melhor coisa a se fazer era mesmo tomar um chocolate quente, na lanchonete do Tadeu.
Haviamos saído a poucos dias do Exército. E, só queríamos fazer uma espécie de despedida saudável.
Éramos cinco amigos sentados em uma mesa ao canto, conversando e rindo ao relembrarmos certas passagens hilárias que havíamos vivido, tão recentemente.
A cada hora um contava um fato acontecido com um dos outros, que era motivo de riso,e zoação geral.
Cada história era entrecortada por outra, e às vezes o final delas, que todos conheciam, nem chegava a ser contado.
Como a nossa reunião já durava quase uma hora, resolvemos pedir uma pzza.
E foi quando o Silva se levantou para ir falar com o Tadeu, que o inesperado aconteceu.
Como o lugar estava cheio, ao passar por uma mesa onde uns rapazes tomavam algumas bebidas, o Silva, sem querer, esbarou na cadeira de uma das moças que os acompanhava. A bebida que estava nas mãos dela derramou e molhou-lhe a calça.
Não ouvimos discussão. Creio que não houve.
Só vimos quando o Silva se virou em nossa direção e, como a pedir ajuda e tendo uma expressão de surpresa no rosto,simplesmente caiu ao chão com as mãos à barriga.
O rapaz que estava ao lado da moça, sem discutir,simplesmente fincou o garfo, que estava em sua mão, no abdômem do Silva.
O tumulto foi geral. E, nesta confuzão o agressor aproveitou para fugir do local.
Quando conseguimos chegar onde o Silva estava, dois de nós deu prioridade em socorrê-lo.
Os outros dois em se certificar que mais nenhum do grupo, daquela mesa, se evadisse
do local.
O Silva demorou quase dois meses para se recuperar.
O rapaz que o agrediu foi somente fichado, e liberado.
Depois de meses no Exército nos preparando para defender "civis indefesos", vimos que agora tinhamos que nos preparar para nos defendermos destes mesmos "civis indefesos".
" O ANÔNIMO "
Não percebi de onde ele veio.
Quando vi le já se acentava ao meu lado, no banco do ponto de ônibus.
Uma parada qualquer em uma pequena cidade perdida, nos confins da Bahia.
Olhou a enorme mochila ao meu lado, e perguntou:
- Indo, ou vindo?
- Como?indaguei.
- Tá chegando, ou tá partindo?
- Ah! Partindo.
- Por que?
- A firma em que eu trabalhava teve que fazer um "enxugamento", e os mais novos "dançaram". Cê sabe como é né, a crise.
- Tá muito triste?- me prguntou.
- Tô. Queria voltar pra casa como bem sucedido...
-Ora,cortou ele,não vejo fracasso em quem busca o que quer. Vejo fracasso em quem espera pelo que quer, sem lutar para consegui-lo. Sem ir atrás de seus sonhos.
A estrada para seu objetivo pode ser longa. Mas, sua caminhada até aqui já diminuiu a distancia entre ele e voce.
Ainda que hoje este tropeço lhe pareça amargo, toda experiência é válida.
Oh, meu ônibus. Boa sorte.
E se foi, sem nem mesmo me dizer seu nome.
Ainda hoje me lembro dele, e lhe agradeço as palavras que me disse aquele dia,naquele momento.
" MEU PAI E O TUBARÃO "
O sol que fazia naquele domingo só poderia estar nos convidando para ir a um lugar para passear: à praia.
E não deu outra.
Meu pai checou o seu "possante" Gordinni e mandou que nos aprontássemos.
E lá fomos nós.
Ir à praia sempre nos trazia a expectativa de comer milho verde, chupar picolés e brincar nas suas areias quentes ...e suas águas geladas.
Minha mãe tinha como papel determinar o perímetro em que podíamos nos movimentar.
Já meu pai tinha outro esquema.
Chegava, dava umas braçadas próximo à orla e, quando sentia que seus músculos estavam aquecidos, rumava para águas mais profundas.
Seguia em direção a uma ilha distante uns trezentos metros da praia.
Naquele domingo não foi diferente.
Nestas horas eu ficava em pé, à beira d'água, observando-o se afastar com suas braçadas bem ritmadas, precisas e tranquilas.Imaginando o dia em que eu o acompanharia à uma exploração pelas ilhas distantes.
Até hoje admiro o jeito como meu pai nada.
Porém, naquele dia aconteceu algo diferente.
Quando restavam uns cem metros para o meu pai chegar à ilha, algumas pessoas em um barco começaram a gesticular, deseperadamente, em sua direção e lhe gritar que se afastasse rapidamente dali.
Meu pai então aumentou, consideravelmente, o ritmo de suas braçadas, e seguiu para a parte da ilha que lhe estava mais próxima .
Só que, a parte da ilha que lhe estava mais próxima era composta de muitas pedras. E, estas pedras eram totalmente cobertas por ouriços.
Para lhe complicar a situação ondas muito fortes arrebentavam nessas pedras.
Ou seja, não havia pior opção de acesso que aquele ponto.
Por isso, todas as vezes que meu pai firmava as mãos nessas pedras e tentava puxar o corpo para fora do mar, vinha uma onda mais forte e o arrastava de volta para suas águas agitadas. E, neste arrastar suas mãos e pés eram perfurados pelos ouriços. Seu peito e baços rasgados pelas pedras.
A muito custo meu pai conseguiu se safar daquela situação.
Quando por fim retornou à praia, com várias pessoas querendo saber o que acontecera lá, ele nos disse que: ao se aproximar da ilha para contorna-la e chegar à enseada pela qual sempre a acessava as pessoas de um barco próximo começaram a apontar em direção às suas costas e a gritarem-lhe:"o peixe.O peixe. Rápido, se afasta."
Ora, como dois dias antes ele nos havia levado para assistir ao lançamento de: "Tubarão, o filme", imaginou que o tal "peixe" fosse um tubarão. E que o mesmo estava se aproximando rapidamente pelas suas costas.
O desepero tomou conta de si e, sem olhar para trás, tentou sair o mais rápido possível da água.
Porém, quando saiu e sentou-se nas pedras para recuperar o fôlego, já todo dilacerado, e olhou para as pessoas do barco que lhe haviam "salvo", para agradecer-lhes, viu que não passavam de pescadores.E que, em seu tranquilo nado, ele estava indo em direção do cardume que eles tentavam apanhar com suas redes.
" A BIC "
Sou canhoto. Sempre fui.
Totalmente canhoto.
Por isso, quando criança tive muita dificuldade na escrita com canetas. Pois as únicas que existiam , no meu início de escola, eram as canetas-tinteiro.
Geralmente canhoto escreve deslizando a mão por cima da escrita récem feita.
Este é o meu caso.
E, as canetas-tinteiro, precisavam de um "mata-borrão" para tirar o excesso de tinta do papel. E, como canhoto, eu já esparramava a tinta com minha própria mão, tão logo acabara de escrever.
Meu pai não se conformava em ter um filho canhoto.
Tentava me obrigar à ser destro. Mas, por mais que eu me esforçasse, não conseguia.
Um dia, voltando da escola a pé, vi, numa praça da cidade, um tumulto diferente do normal.
As pessoas estavam maravilhadas com alguma novidade, fantástica.
Curioso, me aproximei.
Então, vi uma das coisas mais incríveis em minha,até ali, curta vida.
O fim dos "pescoções", hoje se diz "pedala", que meu pai me dava na nuca para me forçar a ser destro.
Um homem vendia uma tal de "Bic", que escrevia um caderno inteiro.
E, ele provava isto rabiscando não um, mas vários cadernos, com a mesma caneta.
Verdade. Eu vi.
Era mesmo incrível.
E mais, nem precisava reabastecê-la no estôjo-tinteiro.
Aliás, ela nem possuia um.
Ele passava a mão por cima da escrita tão logo acabava de escrever.
O vendedor disse que ela era "ESFEROGRÁFICA".
Ééé! Ela tinha uma bolinha na ponta, que pelo que eu entendi, era igual nossas bolinhas de gude, só que bem piquiquitinha, que controlava a saída de tinta.
Disse também que ela tinha um canudinho dentro, que era como se coubesse um tinteiro inteirinho lá.
Ahhh! Eu quis uma.
Totalmente canhoto.
Por isso, quando criança tive muita dificuldade na escrita com canetas. Pois as únicas que existiam , no meu início de escola, eram as canetas-tinteiro.
Geralmente canhoto escreve deslizando a mão por cima da escrita récem feita.
Este é o meu caso.
E, as canetas-tinteiro, precisavam de um "mata-borrão" para tirar o excesso de tinta do papel. E, como canhoto, eu já esparramava a tinta com minha própria mão, tão logo acabara de escrever.
Meu pai não se conformava em ter um filho canhoto.
Tentava me obrigar à ser destro. Mas, por mais que eu me esforçasse, não conseguia.
Um dia, voltando da escola a pé, vi, numa praça da cidade, um tumulto diferente do normal.
As pessoas estavam maravilhadas com alguma novidade, fantástica.
Curioso, me aproximei.
Então, vi uma das coisas mais incríveis em minha,até ali, curta vida.
O fim dos "pescoções", hoje se diz "pedala", que meu pai me dava na nuca para me forçar a ser destro.
Um homem vendia uma tal de "Bic", que escrevia um caderno inteiro.
E, ele provava isto rabiscando não um, mas vários cadernos, com a mesma caneta.
Verdade. Eu vi.
Era mesmo incrível.
E mais, nem precisava reabastecê-la no estôjo-tinteiro.
Aliás, ela nem possuia um.
Ele passava a mão por cima da escrita tão logo acabava de escrever.
O vendedor disse que ela era "ESFEROGRÁFICA".
Ééé! Ela tinha uma bolinha na ponta, que pelo que eu entendi, era igual nossas bolinhas de gude, só que bem piquiquitinha, que controlava a saída de tinta.
Disse também que ela tinha um canudinho dentro, que era como se coubesse um tinteiro inteirinho lá.
Ahhh! Eu quis uma.
' UM DIA DIFÍCIL "
Dizem, e sou obrigado a concordar, em que há dias que o melhor a se fazer é não sair da cama.
Naquela manhã eu deveria ter desconfiado. Pois logo que levantei dei uma "bicuda" no portal do meu quarto.
Mas o dia estava apenas começando.
Tomei o meu café, e saí para a escola.
O dedão do pé ainda me doía, pela pancada no portal, por isso eu mancava um pouco.
Apesar disso resolvi seguir à pé até a escola, cortando caminho pela estação de trem.
Era outono e a paisagem me agradava. Pois, em certa altura do caminho descia, do alto de um corte de pedra, um grande volume d'água, como se fosse uma cachoeira. Mas que na verdade não passava de um vazamento numa tubulação, que alimentava as ricas casas dos engenheiros, mais acima.
Era gostoso molhar cabeça e braços naquela água, e percorrer o resto do caminho molhado e refrescado.
Só que para acessar este atalho tínhamos que passar por um buraco feito no muro que dividia os limites do bairro, com a estrada de ferro.
E quando me aproximei desta passagem avistei, deitado próximo a ele, um enorme cão.
Ora, após um cãozinho me ter feito quebrar o braço, anos atrás, qualquer outro semelhante seu me parecia um ser hostil.
Não havia como eu recuar e evitar passar por ele. Pois, ao decidir ir a pé, perdera o ônibus, que já havia passado. E eu não podia me atrasar pois haveria prova na primeira aula.
Derrepente tive uma brilhante idéia : " Um pouco antes do cão eu pulo o muro."
E assim pensando fui caminhando, já com as pernas bambas e o coração palpitando descompassado, na mesma calçada onde o infeliz, pouco à frente, me aguardava.
Só que, antes que eu chegasse ao ponto onde eu havia determinado, o cão se levantou e olhou em minha direção. Numa postura ameaçadora de quem pensa : " Õba! Lá vem diversão."
Instantaneamente, ou instintivamente, não sei dizer, meus pés pararam de caminhar.
Meus nervos congelaram.
Uma vontade, danada, de mijar pernas abaixo, me invadiu.
Não sei se eu subi no muro porque o cão se movimentou, ou se o cão se movimentou porque eu subi no muro.
A ordm dos fatos não sei precisar, apenas que, que, quando eu vi, eu já estava em cima do muro com o cão, logo abaixo, latindo e pulando, tentando me alcançar.
Só que, o topo do muro era esquinado,em ângulo, o que me impossibilitava de ficar equilibrado sobre ele. E, sendo assim, tive que me jogar para o outro lado dele, para não cair na calçada onde o cão estava.
O ponto em que eu fôra obrigado a escalá-lo dava para o pátio de uma escola municipal. E, foi em seu pátio que eu caí.
Recolhi minhas tralhas de escola, que se esparramaram pelo chão.
Agora, além do dedão, os braços e barrigas estavam ralados, pelo muro e pela queda.
Atrvessei todo o pátio e pedi ao porteiro da escola que me deixasse sair.
Voltei para casa.
Perdi meu dia de escola.
Perdi a prova.
Tomei uma surra.
Fiquei de castigo.
Naquela manhã eu deveria ter desconfiado. Pois, logo que levantei dei uma "bicuda" no portal do meu quarto.
Na próxima vez,jurei à mim mesmo,arrumaria uma doença.
Dizem, e sou obrigado a concordar, em que há dias em que o melhor é não sair da cama.
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