" Ô VELÓRIO "

                         Na minha família os velórios são um mixto de tristeza por quem partiu, e festa pela reunião familiar que um evento desta magnitude proporciona. Pois é a maior oportunidade de se reunirem os primos, e  outros parentes que moram mais distantes. Caso em que me incluo.
                          Cheguei do serviço aquele di, e minha esposa, com as feições de quem já havia chorado muito, me deu a notícia de que um primo meu havia falecido.
                          O coitado havia convivido com um cancer desde sempre e agora, na juventude de seus dezenove anos, fôra vencido.
                          Embora eu deva reconhecer, tenha sido um bravo guerreiro.
                          Partimos cedo no dia seguinte, pois o enterro seria à tardinha. E nossa cidade dista quatrocentos quilômetros da dele.
                          Não poderiamos, de forma alguma, deixar de comparecer e dar nosso apoio, com a nossa presença.
                          A casa estava repleta de parentes e amigos.
                          Com eu esperava primos de várias cidades, e que a tempos não os via, estavam lá.
                          Todos ficaram muito felizes ao nos verem.
                          Com vários pusemos, à meia-voz e com muito respeito à situação, alguns assuntos em dia.
                          Meu tio, na medida do possível, estava bem.
                          Seu pensar, comparadamente, sempre fôra como o de Jó : " Se alguma desgraça tem que acontecer a alguém... por que este alguém não pode ser eu ? "
                          Ao passo que eu, particularmente, sempre pensei o contrário : " Se alguma desgraça tem que acontecer a alguém... por que este alguém tem que ser eu ? ".
                          Bom, o fato é que à tardinha nos dirigimos ao cemitério para os ritos finais.
                          O cemitério, em questão, era um desses: " Parques da Paz ".
                          Totalmente gramado.
                          Capelas bem ventiladas.
                          Arborizado.
                          No chão plaquinhas fixadas, identificavam quem ali estava sob nossos pés.
                          Mas, o que mais me chamou a atenção foram as placas de orientações no caminho do cortejo à pé.
                          Uma dizia : " ENTRADA ".
                          Outra, mais adiante, informava : " SENTIDO ÚNICO ".
                          Aí me deparei com a próxima : " PROIBIDO RETORNAR ".
                          Ôpa! Meus sentidos começaram a ficar em alerta.
                          E eu, seguindo a procissão, fiquei aguardando qual seria a próxima placa.
                          Mas, ao me aproximar do " CAMIHO FINAL " que faríamos, puxei meu primo, "Val", pelo braço e, parando-o, lhe disse em sussurro : " Val, é melhor aguardarmos por aqui."
                          Ele, sem entender o motivo, me perguntou à baixa voz : " Por que ? ".
                          Apontei-lhe, então, os dizeres no portal em arco, sobre as nossas cabeças.
                         E ele, olhando para onde eu apontava, não conteve uma sonora, e inconveniente, gargalhada, que chamou a atenção de todos, ao ler : " SAÍDA PROIBIDA ".

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