" O MENDIGO "

                         Não sei se grande parte dos mendigos mentem..., ou se fantasiam suas vidas anteriores à miséria.
                         Por curiosidade, sempre gostei de lhes dar trela para saber um pouco além de suas aparências.
                         Mas houve um, certa vez, que me surpreendeu com sua abordagem inusitada.
                         Se mentia, ou se fantasiava... :

                         Ele se aproximou de mim na rua enquanto eu olhava uma vitrine de loja, no centro.
                         Por sua aparência, maltrapilha, imaginei que viria com a velha e conhecida frase : " O  senhor pode me arranjar um trocado, pr'eu comprar comida."
                         Ao que eu, já desconfiado de que o "trocado" lhe serviria a um cigarro, ou uma boa dose de cachaça "incha-pé", lhe responderia, catedraticamente : " Desculpe! Estou sem trocado nenhum, no momento."
                         Ele, então, me "abençoaria", e iria embora resmungando coisas impróprias de aqui serem ditas.
                         E eu seguiria o meu caminho como se nada houvesse acontecido.
                         Mas, não foi o que aconteceu.
                         Ao invés disso ele simplesmente parou ao meu lado e, acompanhando o meu olhar, levou os seus ao objeto, por mim, cobiçado.
                    
                         E disse : " É uma bela jaqueta."
                         Concordei dizendo : " É sim."
                         Ele então prosseguiu, como em um monólogo : " Já tive uma dessas. Comprei aqui mesmo, nesta loja.
                         O preço é um pouco salgado, mas é muito boa.
                         As costuras são duplas. Reforçadas."
                        
                         Não foram só suas palavras que me surpreenderam. Mas também, a fluência com que elas lhe saiam da boca.
                         Iniciou-se, assim, uma conversa, entre nós dois.
                         Ele me disse que havia sido dono de um comércio, como aquele, tempos atrás. Herança de seu falecido pai.
                         Era solteiro. Filho único.
                         Sempre vivera das mesadas do pai.
                         Quando se viu "dono" de todo o comércio, viu também multiplicar, em seu bolso, o valor monetário à sua disposição.
                         Na época não lhe faltaram os "amigos", e as "namoradas" ocasionais.
                         A vida virou festa. E, quando deu por si, não tinha mais a loja. Não tinha mais os amigos.
Nem mesmo as namoradas.Assim como elas, tudo fôra de ocasiâo.
                         Um dia, antes que não lhe retasse mais nada, sonhou com o pai. E, em sonho, este lhe disse : " Filho, peque o que lhe resta... e peça ao seu tio, Vítor, que o aplique para voce. Depois, com o mínimo necessário, saia a andar pelas cidades, como um mendigo, e aprenda".
                         E, virando-se para mim, completou :
                
                      " Aqueles que muito teem..., muito mais querem ter.
                        Querem ter, muito mais..., os que pouco teem.
                        Mas, só aqueles não teem nada, os verdadeiramente miseráveis, sabem dar valor ao pouco que lhes coube."
                       
                        Virou-se... e se foi.
                        Nunca mais o vi... mas jamais esqueci a nossa curta conversa.                   

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