" O LADRÃO "
Uma noite entrou ladrão na casa de "seu" Mário.
Era a segunda vez que lhe invadiam a casa, enquanto estava fora.
Seu Mário ligou para a polícia. Que veio e fez o de sempre: registrou a ocorrência e o orientou a deixar, sempre que saísse, uma luz acesa, e avisasse aos vizinhos.
Quando a "baratinha" da polícia chegou, juntou todo mundo em frente à casa.
Nós, os meninos da rua, também fomos.
Depois que a polícia foi embora seu Mário, conversando com os vizinhos, disse ter certeza de que nada seria reolvido.
Tudo ficaria como da outra vez. Só papel e conversa.
Então nós, os meninos da rua, resolvemos ajudar seu Mário a descobrir quem era o ladrão. Pois, sentimos o cheirinho de uma boa, e divertida, aventura.
Montamos, então, a nossa estratégia.
Nas duas vezes que o ladrão entrou seu Mário, dona Rosa(sua espôsa), e Vladimir, seu cunhado que viera morar uns tempos com eles, haviam saído para o culto em sua igreja, à noite.
Nosso plano entraria em execução, então, numa noite em que eles fossem para o culto.
Uns longos vinte dias depois, pelo menos longos para nós, todos eles saíram à noite para sua igreja.
Nós brincávamos na rua e os vimos sair.
Corremos cada um para sua casa, e apanhamos nossas munições.
Nos encontramos,momentos depois, num terreno baldio que existia ao fundo da casa de seu Mário.
Éramos cinco garotos.
Pulamos o muro e entramos no quintal da casa, que era um pomar.
Havia muitas árvores que lhe fazia muita sombra.
A claridade da rua só chegava à parte da frente da casa.
Nos espalhamos por aquele pomar, de modo a quatro de nós formarem um semi-círculo, mais próximos à casa, aberto em direção ao muro dos fundos.
Eu fiquei a uns cinco metros antes do semi-circulo. Ou seja, entre o semi-circulo e o muro dos fundos. Só que agachado a um canto.
Após meia hora posicionados, o que já estava nos deixando cansados, ansiosos e decepcionados, vimos um vulto saltar o muro.
O mesmo muro que antes havíamos pulado.
Quando o vulto se aproximou do centro do nosso semi-circulo, foi a marca para agirmos simultaneamente.
Cada menino acendeu uma "cabeça de nêgo", um potente rojão de São João, e o arremessou em direção ao ladrão.
Pêgo de surpresa o indivíduo tomou um baita susto e voltou, correndo, em direção ao muro que havia acabado de saltar.
Só que, entre os meninos e o muro, eu havia esticado um arame farpado, assim que ele passara pelo ponto onde eu me encontrava.
O coitado tropeçou, e foi ao chão.
Se levantou rápido, e sumiu por cima do muro.
A escuridão, que envolvia o pomar, não nos permitiu ter certeza de quem se tratava ser o larápio. Mas, ficamos com uma forte suspeita.
Passados alguns minutos, após baixar a adrenalina e a nossa euforia, nos retiramos dali e voltamos a brincar n rua.
Ainda nos faltava a segunda parte do plano.
Mais tarde "seu" Mário, "dona" Rosa e o Vladimir retornaram do culto.
Nossos pais os chamaram e lhes disseram que os meninos haviam jogado rojões em seu quintal.
Coisas de moleques, disseram.
Enquanto eles conversavam com o casal, Cassimiro, o menorzinho entre nós, e que não estivera no pomar, entregou um bilhete ao Vladimir.
Vladimir ficou pálido, e nos olhou.
Não disse nada.
Sua calça possuía, nos joelhos, marcas de terra.
A palma de sua mão, no reflexo de se proteger ao cair, apresentava alguns arranhões.
E, a parte mais baixa de sua calça estava com um pequeno rasgo. Provavelmente consequencia do arame farpado.
Passou por nós, calado, e entrou em casa.
Alguns dias depois o vimos se despedir de "dona" Rosa, dar um abraço em "seu" Mário... e partir.
Nunca mais ouvimos, ou vimos o Vladimir.
Nunca mais a casa de "seu" Mário, e "dona" Rosa, voltou a ser invadida.
PS: No bilhete a ele entregue só uma palavra : " ladrão."
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