" MOENES, O MACANUDO "

                         Tenente Merlo "tava" com as macacas naquele dia.
                         Colocou o pelotão em forma às cinco da manhã, e gritava palavras de ordens à todo momento.
                         Malhou a turma, em exercícios físicos, até as seis e meia. Aí nos deixou fazer o desjejum.
                         Porém foram somente dez minutos para fazê-lo. Pois eis que ele entra alojamento adentro, mandando que fizéssemos nova formação no pátio.
                         Já em formação fomos, em marcha acelerada, ao fundo do quartel.
                         Ao seguirmos naquela direção já sabíamos que a manhã não seria nada boa para nós.
                         Nos fundos do quartel havia uma pista de resistência. E era exatamente para lá que nos dirigíamos.
                         Ao chegarmos lá vimos os outros graduados esperando por nós : cabos, sargentos... e o capitão da companhia.
                         Mais à frente, ao final da pista, uma ambulância estava posicionada, à espera dos inevitáveis desfalecidos soldados que, com certeza, apareceriam.
                         A pista se iniciava com umas toras suspensas, apoiadas em apoios a meio metro do chão, em forma de zig-zag.
                         Na sequência vinha um muro de três metros para ser transporto.
                         Do outro lado uma rede de arame-farpado, a meio metro de altura, com um lamaçal por baixo, onde tinhamos que nos arrastar para ultrpassá-lo.
                         Após esta lama, para que ficássemos "limpos", passávamos por cem metros de mangue, com profundidade de metro e meio. Fora a lama submersa que teimava em prender nossos coturnos ao fundo.
                          Nesta etapa tínhamos que manter nossos fuzis acima da cabeça, com nossos braços esticados.
                          Em seguida deslizávamos por cem metros de corda, na horizontal.
                          Daí, era só pular dentro em um buraco de tres metros de profundidade, correr por seu fosso de cinco metros, e subir-lhe a parede oposta, e lisa.
                          Para finalizar subíamos uma escada de corda de cinco metros de altura e, quando chegávamos em seu tôpo. Dávamos uma "bandeira", que consiste em voce estar com o corpo de um lado da escada, passar seus braços para o outro lado, e arremessar seu corpo, em um giro de trezentos e sessenta graus e desce,r em queda livre, caindo agaixado sobre um monte de areia, cinco metros abaixo.
                           Apesar de alguns terem cansado bem antes desta fase, houve somente um em quem o tenente focou toda a sua atenção, não o deixando desistir.
                           Fez com que o infeliz repetisse e repetisse, várias etapas, até vencê-las.
                           Ele lhe gritava bem próximo : "Vamos , macanudo. Vamos. Voce consegue."
                           O pobre soldado Moenes, o "macanudo" a quem o tenente se referia, e que quer dizer "esperto", quando chegou ao alto da escada de corda... empacou que nem mula teimosa.
                           Temeu em se arremessar de altura tão assustadora.
                           Por mais que o tenente gritasse, Moenes não cumpria sua ordem.
                           Então o tenente ameaçou subir... e jogá-lo.
                           Temendo a ameaça o pobre coitado fez a "bandeira" e despencou, desengonçadamente, se estatelando na areia abaixo.
                           O tenente, temendo ter exagerado no comando, correu até o soldado que, ao vê-lo correndo em sua direção ficou, imediatamente, de pé, em posiçao de sentido, esperando-o.
                           Ao ver a presteza com que o soldado se levantara o tenente ficou mais aliviado, e gritou-lhe : "Soldado. Eu não mandei voce cair. Eu mandei voce saltar."
                           Ao que o soldado com sua voz esganiçada respondeu, também aos gritos : " Eu não caí, senhor. Eu pulei, senhor."
                           E o tenente... : "Caiu, que eu ví, soldado."
                           E Moenes insistiu : " Eu não caí, senhor. Eu pulei."
                           O tenente então lhe disse : " Se voce pulou, soldado, por que o seu nariz está torto ? "
                           Moenes, ao cair na areia havia fraturado o nariz, atingido pelo próprio joelho.
                           Mas, ele não demonstrava sentir dor, e se mantinha na posição de sentido. E então informou ao tenente : "Eu não entortei o nariz, tenente."
                           O tenente, talvez em reconhecimento à força de atitude do soldado, lhe bateu amigavelmente no ombro, e lhe disse : " Soldado Moenes, voce é mesmo um sujeito macanudo. Vá para a ambulância, para que te tratem. "
                            O soldado Moenes só lhe respondeu : " Obrigado, senhor."
                            E saiu em disparada rumo à ambulância.
                            O resto da tropa, que à meia distância assistia àquele interlóquio se divertia, às gargalhadas, à cada frase pronunciada pelos dois.
                 
                  
                         
                            
                          

                        
                        
                   

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