" EU, COSME E DAMIÃO "

              
               Certa vez fui convidado para trabalhar numa bilheteria de clube, no periodo de carnaval.
               A catraca da portaria de entrada ficava bem próxima de onde eu estava. E, devido a esta proximidade pude ver, logo na primeira noite, que os dois rapazes incubidos da entrada dos foliões eram muito rigorosos na admissão ,ao clube, dos mesmos.
               Se alguém estava descalço... não entrava.
               Se estavam com bebida na mão, mesmo que fosse em copo plástico, ou a terminavam antes de entrarem, ou a jogavam fora. Senão... não entravam.
               Sem camisa... nem pensar.
               Lá dentro, após todo este rigor que " Cosme e Damião ", vou assim aqui  a eles me referir, impunham na portaria, ninguém se importava se ficavam descalços, bêbados ou semi-nús.
               O interesse do clube era faturar. Pois, lá dentro se vendia todo o tipo de bebida.
               Afinal... era carnaval.
               Na segunda noite saí de casa preparado para driblar aquela incômoda situação da portaria, que às vezes me obrigava a devolver o dinheiro do bilhete de algum folião desgostoso.
               Levei, dentro de uma sacola, um saco de estopaque minha mãe havia comprado para usar como pano de chão, mas ainda limpo e virgem.
               O saco era aberto dos lados, com um buraco em seu alto, feito por mim à tesoura para que passasse uma cabeça, e um velho chinelo, número quarenta e dois.
              O primeiro folião que observei chegando descalço lhe passei, pela grade da bilheteria, o par de chinelos. Não sem antes lhe explicar o motivo.
              Ele apanhou o chinelo, calçou-o, e entrou.
              Depois de estar lá dentro passou ao lado da bilheteria e, sem parar, deixou-os à minha porta.
              Um outro rapaz, que chegava com a namorada que usava um minúsculo top, estava sem camisa.
              Passei-lhe o saco de estopa, para que o vestisse.
              Assim como os abadás que os jogadores usam, em seus treinos, para diferenciar o "time A" do "time B".
              Assim como o rapaz do chinelo, ele também o devolveu assim que se encontrou pelo lado de dentro, e passou próximo à porta interna da bilheteria.
              Os copos de bebidas eu os apanhava pela grade da bilheteria, e os devolvia pela porta interna.
              A cada serviço prestado eu cobrava uma pequena taxa.
              Todos aos que ajudei naquela noite me "recompensaram" agradecidos.
              De manhã, ao término do baile, chamei Cosme e Damião e lhes contei, em particular,  minhas pequenas armações.
              Dei-lhes trinta por cento de todo o meu "arrecadamento extra", mas não sem antes firmar-mos um combinado : "Que eles endurecessem, ainda mais o acesso, dos foliões ao baile. Deixando, para mim, a "solução" em "ajudá-los".
              Ao final das quatro noites conseguimos um exelente "rendimento extra".

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