Um dia aparecu em nossa rua um cachorro que ninguém sabia de onde viera, muito menos quem era seu dono.
Então nós, a molecada da rua, resolvemos "adotá-lo".
Acredito que ele pertencia à conhecida família dos "vira-latas".
Com o tempo, onde íamos, ele nos acompanhava.
Estava sempre em nossas brincadeiras.
No pique-esconde... para nos delatar.
No pique-pega... para nos atravessar a frente, fazendo com que caíssemos e virássemos presa fácil para o "dono" do pique.
Ou seja, atrapalhava qualquer brincadeira nossa.
Se tornou um grande amigo de todos.
Demos-lhe o nome de "crush".
Em alusão a um refrigerante laranja da época, que era muito conhecido. E como possuía a pelagem amarela, achamos que o nome lhe caía bem.
Porém um dia Dona Míriam, mãe de um lindo bebê de dez meses, ahou que o crush era um perigo para todos nós.
Dizia que por ele ser um cachorro de rua, não era confiável.
Poderia não estar vacinado e, ao morder uma criança, transmitir-lhe a raiva.
Falava mil coisas que poderiam acontecer.
O coitado do crush sem entender nada do que ela falava, e o porque de tanto lhe apontarem na direção, de vez em quando levantava as orelhas do chão, onde estava deitado, e fazia um leve movimento com os olhos, em direção os que conversavam à seu respeito.
Assim como a tal da água mole na pedra dura, tanto ela falou que nossos pais acharam, por bem, prevenir. Proibiram-nos de brincar com o crush.
Crush, como a entender a situação após tantas vezes ser enxotado por nós, passou a ficar somente na calçada, deitado, nos observando brincar.
Aconteceu então que num desses dias em que ele estava deitado na calçada, no outro extremo, da mesma calçada, Dona Míriam conversava com uma vizinha, enquanto seu filhinho brincava no chão.
Dona Míriam não percebeu quando seu bebê, engatinhando, foi para o meio da rua.
Dona Míriam não percebeu... mas parece que crush sim.
Um carro entrou pela rua e seguia em direção ao bebe.
Ninguém sabe se por coincidência, ou por percepção, crush latiu e correu para o meio da rua. Entre o carro e o bebê.
Crush foi atropelado.
O som da freada do carro chamou a atenção dos que estavam na rua.
Dona Míriam, quando ouviu o latido, pensou que o cachorro atacava seu bebê.
Virou a cabeça a tempo de ver o pobre câo sendo colhido pelo carro, e o carro parar antes de atropelar seu bebê.
Correu, apavorada, para o seu bebê... e o abraçou.
Depois, compreendendo o que acontecera, olhou para o cão, que agonizava, passou-lhe a mão na cabeça, como a agradecer-lhe o ato heróico, e a se desculpar por o haver espezinhado.
Uma lágrima, talvez de remorço e/ou de arrependimento, lhe deslizou pela face.
Alguns dias depois um senhor apareceu em nossa rua.
Procurava por um cão de pelagem amarela, que havia se perdido de seu circo. Companheiro de longa data.
O cão, disse ele, atendia pelo nome de "Valente".
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