Uma coisa que nunca entendi muito bem, ou na época me era difícil aceitar, era o motivo que levava meu padrinho à não permitir que andássemos em sua bicicleta, quando passávamos as férias em sua casa.
Era a melhor bicicleta que havia.
De cor prêta, ela era robusta, bonita e muito pesada.
Devido à sua altura, e à nossa baixa estatura, tinhamos que pedala-la passando nossas pequenas pernas por entre o seu quadro.
Num desses dias em que estávamos por lá de férias avistei, ao final da rua, na casa de "seu" Clércio, uma menina moreninha, linda. Sobrinha dele, que por lá também, passava férias.
Convenci meu irmão à darmos umas "passadas", a pé, em frente à casa de seu Clércio, assim como quem não quer nada e, quem sabe puxar assunto com a tal menina.
As tais "passadas" funcionaram.
Lá pela quarta "passada" que demos, com ela sentada na calçada "distraidamente", tomei coragem e me aproximei.
Conversamos um pouco e a convidei para, à noite, andarmos de bicicleta pela rua.
Cida, este era om nome dela, aceitou.
Voltamos, então, para casa.
Eu caminhava ligeiro, como se assim pudesse fazer o tempo passar mais rápido, e a noite chegar mais cedo.
Eu estava feliz, e ansioso para estar com ela novamente.
Eu e meu irmão concordamos de que não ficaria muito bem eu me encontrar com ela,mais tarde, em uma das bicicletas de minhas tias.
Tinha que ser em bicicleta de homem.
Não havia bicicleta melhor para impressioná-la que a bicicleta de meu padrinho.
Com o apoio moral de tios e tias, à minha causa, conseguimos a licença para sairmos em tão cobiçado objeto de transporte.
A noite, finalmente, chegou e nos encontramos.
A rua possuia uns quatrocentos metros de comprimento.
Fizemos um caminho de ida e volta de uma ponta a outra, conversando.
Eu carregava meu irmão na garupa, ela uma prima na sua.
Na segunda passada por um dos extremos da rua, meu irmão propôs que disputássemos, eu e ela com os dois à garupa, uma corrida. Quem ganhasse teria um desejo realizado pelo outro.
Entendi, e ela também, o propósito da proposta.
Aceitamos.
Sabíamos que, independente de quem de nós ganhasse, o prêmio seria o mesmo para mim, e para ela.
Então, como crianças que éramos,nos empenhamos na disputa.
Meu irmão, na garupa, me incentivava.
A prima fazia o mesmo com ela.
Nós dois, como cavalos de corridas açoitados por seus jóckeis, dávamos o máximo que podíamos, aos pedais.
Estávamos à frente por duas bicicletas de vantagem.
Meu irmão, antevendo nossa vitória, abriu os braços em comemoração.
Também eu, soltando as mãos do guidão, abri os meus.
Neste exato momento a roda dianteira de nossa bicicleta bateu em um buraco, e nós dois fomos arremessados no ar.
Cida, com sua prima à garupa, vinha colada a nós, e não teve tempo nem mesmo de saber o que estava acontecendo.
Colidiram com nossa bicicleta, já caída, e as duas vieram se juntar à nós, num emaranhado de poeira, bicicletas e crianças.
Arranhamos tudo o que tínhamos direito: braços, cotovelos, joelhos...mas, nada disso preocupava à mim, ou ao meu irmão.
Muito menos nos preocupamos em saber se as meninas haviam se machucado, ou não, e quanto.
Nos levantamos e não olhamos nem por nós, nem por elas.
Também já nem pensava no prêmio.
Só nos preocupava saber como explicar, ao meu padrinho, tantos estragos em sua tão estimada bicicleta, em tão curto tempo de passeio.
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