" UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL "

                         Havia no ponto de ônibus da Avenida Marechal, um senhor que todos os dias montava a sua banca para vender laranjas. As quais ele descascava, na hora, com sua maquininha manual, ao pedido do freguês.
                         Eu gostava de ver a eficiência daquela pequena máquina funcionando. Ele prendia a laranja nela, como um torneiro mecânico prende uma peça ao seu torno. Depois, ao girar manualmente a manivela lateral, a casca ia sendo retirada em uma fina tira única.
                         Naquele dia, como em tantos outros, enquanto aguardava por meu ônibus, o observava trabalhar.
                         Foi quando um jovem pai chegou ao ponto com seu filhinho de, aproximadamente, quatro anos.
                         O pai ficou a vigiar o ônibus, enquanto o menino, talvez na mesma fascinação minha, estava com o olhar atraído por aquela máquina que transformava as cascas das laranjas. Como a fazer delas tiras de serpentinas de carnavais, enquanto despia as frutas.
                         Em certo momento o menino se vira para o pai e lhe pede que lhe compre uma daquelas laranjas.
                         O pai então enfia a mão no bolso e  a retira fechada.
                         Quando a abre lhe vejo, à palma, algumas moedas.
                         Com o indicador de sua outra mão, faz a contagem de sua pequena posse financeira.
                         Volta-se agora para o filho e lhe diz que, infelizmente não seria possivel. Pois, o pouco que possuía daria apenas para pagar a passagem de volta para casa.
                         O menino se cala, momentâneamente conformado.
                         Passados alguns minutos, e ao ver que as pessoas continuavam a comprar as laranjas, ele voltou à carga.
                         Novamente fez o pedido ao pai.
                         O pai se agacha, olha-o nos olhos e, mansamente, assim como ele também não havia feito alarde ao pedir, lhe explica novamente a situação.
                         Acrescenta que, se compra a laranja teem que voltar a pé para casa.
                         O menino desta vez realmente se conforma. Passa somente a observar o descascar das laranjas.
                         Me aproximo do pai e, apesar de também não estar com muito, mas o suficiente para o ônibus e um lanche na escola, me ofereço para comprar uma laranja para seu filho.
                         Ele me olha, agradecido, e me diz : "Obrigado, menino. Mas meu filho tem de aprender desde já o que posso e o que não posso lhe dar. Se conformar em aceitar o que lhe é possível ter. Não se preocupe."
                         Confesso que na hora fiquei constrangido com a sua negativa. Mas nunca me esqueci deste fato.
                         Mais tarde a vida me ensinou a agir assim com meus próprios filhos. E, nunca tive que repreendê-los por quererem o que não me era possível lhes dar.
                       

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