" GORDINNI, O GLORIOSO "

                         Era para ser um domingo normal. Tranquilo.
                         Íamos todos à casa de minha avó. Só que desta vez estávamos felizes por não termos de ir de ônibus. Afinal de contas, meu pai havia comprado um "Godinni".
                         Tudo bem que não era um carro novo. Mas, dava pra quebrar o galho.
                         Era quase um semi-novo.
                         Tá, vou confessar : não chegava a tanto.
                         Mas meu pai disse que ele tinha "procedência".
                         Eu num entendi muito bem, naquele dia, o que aquela palavra queria dizer não.
                         Mas meu pai botou tanta ênfaze nela, que eu vi que só podia ser uma coisa muito boa, aquela tal de "procedência".
                         Bom, ajeitamos nossas tralhas e entramos, felizes, no " Glorioso Gordinni ", como o chamamos.
                         Meu pai, enquanto dirigia, ia elogiando o carro.
                         Falava de seu incrivel desempenho na estrada.
                         Segundo ele era um carro que, vazio, logicamente considerando-se apenas o motorista dentro, podia chegar a uma velocidade de noventa quilômetros por hora.
                         No momento, como estava lotado por nós seis, tinhamos que nos contentar com um máximo de setenta por hora.
                         E a viagem seguia.            
                         Quando já avistávamos a casa de nossa avó, sentimos um forte cheiro de borracha queimada.
                         Mais alguns metros à frente,quando passávamos ao lado de um campo de futebol, onde o 'Olaria F.C.", time local, fazia uma partida, meu pai derrepente parou o carro e desceu, deseperado, gritando para todos saírem rapidamente de dentro, pois o gordinni havia sofrido um curto circuito, e começara a se incendiar.
                         Enquanto meu pai se preocupava em retirar sua família de dentro do carro, um dos jogadores apareceu, já com um extintor às mãos, e conteve o princípio de incêndio,. Salvando assim de uma morte precoce, o glorioso gordinni de meu pai.
                         Como a casa de minha avó estava próxima, terminamos de chegar a pé mesmo.
                         Mais tarde meu tio, com uma corda amarrada à trazeira de seu fusca, rebocou o gordinni. E, dentro dele seguíamos todos nós de volta para casa.
                        
                       
                      

" LUVAS "

                         Volta e meia necessitamos encontrar luvas que nos calcem bem nas mãos.
                         Pode ser uma palavra, um abraço...ou apeas um olhar.
                         Pode ser, simplesmente, alguém que nos ouça... sem nada nos questionar.
                         A vida toda gostei de escrever e ler.
                         Para isso, procurava sempre um lugar tranquilo onde sabia que só haveria a paz de minha solidão, com meus cadernos e livros.
                         Naquele dia eu estava lendo um livro à sombra de uma árvore, sentado na grama, em frente à uma igreja de estilo barroco, com uma leve brisa de outono à refrescar aquele suave fim de tarde.
                         Decorridos alguns minutos de leitura, vi um senhor se aproximar e assentar-se em um banco próximo onde eu me encontrava.
                         Trazia um semblante pesado. Triste. Sisudo. Carregado de dor.
                         Derrepente irrompeu em um choro mudo. Sentido.
                         Me aproximei e lhe perguntei se podia ajudá-lo.
                         Ele então me olhou, e disse:
                      
                        "- Não! Ninguém pode."
                        
                         E continuou:
                      
                        "- Estou vindo do hospital. Meu filho, após tantos meses em coma, veio hoje à falecer.
                         Em seus dezessete anos de vida...não estive presente à nenhum de seus aniversários.
                         Não o vi nascer. Não o acompanhei crescer.
                         Sempre acreditei que ele viveria mais que eu. Então, trabalhei muito para garantir-lhe um futuro seguro. Mas aprendi, amargamente, que não podemos programar um futuro quando, o senhor destino é quem comanda os nossos caminhos.
                          Agora, fiquei só.
                          Dele não tenho, nem mesmo, lembranças de momentos felizes juntos."

                          Suspirou, um suspiro de alma cansada. Abatida. Vencida pela vida.
                          Se levantou e, sem nada mais dizer, nem mesmo olhar para trás, se foi.
                          Vi-o se afastar num passo arrastado. Derrotado.
                          Curvado sob o amargo peso de suas escolhas.
                        

" A RESSACA "

                         Estávamos  nas duas semanas de provas na escola.
                         A primeira semana havia sido puxada e estávamos na quarta-feira da segunda semana. Mas, neste dia não haveria aula. Então, eu e meu amigoGaspar, resolvemos ir à praia  " pegar jacaré ", nas ondas. O que consiste em voce deslizar pelas ondas, usando o seu corpo como se fosse uma prancha de surf.
                         A idéia era só relaxar um pouco.
                         Quando chegamos à praia vimos que o mar estava de ressaca. Ou seja, muito agitado.
                         "Beleza, pensamos, vamos ter muitas ondas para brincar".
                         Fomos para a parte da praia onde o mar estava mais violento: a "arrebentação", como a chamávamos.
                         Enterramos nosso dinheiro, da passagem de volta do ônibus, na areia e entramos no mar.
                         Nos divertimos, por um bom tempo, em várias ondas, sem que retornássemos à areia.
                         Quando nos sentimos um pouco cansados, resolvemos sair e dar um tempo.
                         Só que, se nós já havíamos brincado o suficiente no mar, o mar ainda não havia se divertido o suficiente conosco.
                         Quando estávamos quase saindo dele, uma onda nos puxou de volta.
                         E assim, todas as outras vezes que tentamos, ele nos mandava uma onda mais alta,e mais forte que a anterior, que nos obrigava a dar meia volta  e " furá-la ", num mergulho, retornando à sua parte funda, e revolta.
                         Quando conseguimos chegar, novamente à areia, estávamos exaustos.
                         Sentamo-nos na areia cansados, a observar o mar.
                         Gaspar olhou para mim e disse : " P... cara, essa foi f..."
                         E ficamos em silêncio.
                         A princípio assustados pelo que passamos. Depois, aliviados por termos conseguido.
                         E, ainda em silêncio, sem nos dizermos uma só palavra, nos levantamos. Sorrimo-nos, em um entendimento mudo, e mútuo, e retornamos ao mar.
                         Havia a estúpida,e muitas vezes saudável, convicção juvenil de que agora o venceríamos fácil. Pois, tínhamos descoberto seu segredo.
                        
                        

                      

" EROSÕES "

                         Estava assistindo ao noticiário da tv, quando passou a reportagem onde um prefeito declarara estado de emergência, devido à uma grande erosão que vem devorando sua cidade, à proporção de oito centímetros ao mes.
                         Agora, vinte anos após ter sido detectada, a situação é dada como irreversível.
                         Ou seja, a cidade está condenada a desaparecer, engolida por sua própia ferida, inicalmente ignorada.
                         Paradoxiando, também nós temos que tomar cuidado com as pequenas erosões que, muitas vezes sem percebermos, provocamos nas pessoas. Ou nos são provocadas.
                         Sentimentos e sensações mal resolvidas, mal interpretadas, ou não esclarecidas, tornam-se pequenas feridas, na alma e no ego das pessoas, que podem levar a erosões irreversíveis nos relacionamentos que temos pela vida.
                         Assim nascem as separações. As inimizades.
                         Assim nascem as guerras.
                         A mais estúpidas das erosões humanas, que pode engolir uma cidade, um país... um povo.
                         Toda a humanidade pode, um dia, desaparecer, engolida por suas próprias feridas.

" UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL "

                         Havia no ponto de ônibus da Avenida Marechal, um senhor que todos os dias montava a sua banca para vender laranjas. As quais ele descascava, na hora, com sua maquininha manual, ao pedido do freguês.
                         Eu gostava de ver a eficiência daquela pequena máquina funcionando. Ele prendia a laranja nela, como um torneiro mecânico prende uma peça ao seu torno. Depois, ao girar manualmente a manivela lateral, a casca ia sendo retirada em uma fina tira única.
                         Naquele dia, como em tantos outros, enquanto aguardava por meu ônibus, o observava trabalhar.
                         Foi quando um jovem pai chegou ao ponto com seu filhinho de, aproximadamente, quatro anos.
                         O pai ficou a vigiar o ônibus, enquanto o menino, talvez na mesma fascinação minha, estava com o olhar atraído por aquela máquina que transformava as cascas das laranjas. Como a fazer delas tiras de serpentinas de carnavais, enquanto despia as frutas.
                         Em certo momento o menino se vira para o pai e lhe pede que lhe compre uma daquelas laranjas.
                         O pai então enfia a mão no bolso e  a retira fechada.
                         Quando a abre lhe vejo, à palma, algumas moedas.
                         Com o indicador de sua outra mão, faz a contagem de sua pequena posse financeira.
                         Volta-se agora para o filho e lhe diz que, infelizmente não seria possivel. Pois, o pouco que possuía daria apenas para pagar a passagem de volta para casa.
                         O menino se cala, momentâneamente conformado.
                         Passados alguns minutos, e ao ver que as pessoas continuavam a comprar as laranjas, ele voltou à carga.
                         Novamente fez o pedido ao pai.
                         O pai se agacha, olha-o nos olhos e, mansamente, assim como ele também não havia feito alarde ao pedir, lhe explica novamente a situação.
                         Acrescenta que, se compra a laranja teem que voltar a pé para casa.
                         O menino desta vez realmente se conforma. Passa somente a observar o descascar das laranjas.
                         Me aproximo do pai e, apesar de também não estar com muito, mas o suficiente para o ônibus e um lanche na escola, me ofereço para comprar uma laranja para seu filho.
                         Ele me olha, agradecido, e me diz : "Obrigado, menino. Mas meu filho tem de aprender desde já o que posso e o que não posso lhe dar. Se conformar em aceitar o que lhe é possível ter. Não se preocupe."
                         Confesso que na hora fiquei constrangido com a sua negativa. Mas nunca me esqueci deste fato.
                         Mais tarde a vida me ensinou a agir assim com meus próprios filhos. E, nunca tive que repreendê-los por quererem o que não me era possível lhes dar.