ahou A minha avó sempre morou numa área rural. Uma chácara.
Na verdade, sempre me pareceu mais um sítio, dado à quantidade de terra que o compunha.
Bem ao fundo dessas terras existe uma montanha: o "Moxuara".
Esta montanha é uma enorme pedra, composta de uma densa mata intercalada por vegetação rasteira.
De seu topo consegue-se ter a vista de quatro cidades, que ficam a um raio de cinquenta quilômetros de distância.
É preciso muita determinação para se chegar ao seu cume.
E foi com esta "suposta" determinação que eu, e meu amigo Gaspar, resolvemos desbravá-lo.
Mochila às costas. Barraca Sioux atravessada ao corpo, passamos antes na casa de minha avó.
Minhas tias tentaram nos fazer desistir daquela, louca, empreitada. Pois, nunca elas souberam de alguém que o havia subido.
Para nós, saber disto, era um aditivo a mais.
Falaram das possíveis cobras que poderíamos encontrar.
Do horário impróprio, era pouco mais de meio dia. Poderia escurecer e estarmos lá em cima.
Ainda assim, fomos.
Estávamos determinados a tirar fotos de uma bela paisagem, que só nós teríamos.
Romper a primeira etapa de mata até que não nos foi muito difícil. Mas, em seguida viriam somente partes íngremes.
Teríamos que escalar em paredes de pedra.
Foi, justamente, nesta parte de pedra, que compõe um terço da montanha, que meu amigo começou a perder sua determinação.
O seu espírito aventureiro começou a ser denegrido pelo cansaço.
Mas, ainda havia muita montanha para ser vencida. E não ia ter graça eu vencê-la, deixando meu amigo para tráz.
Afinal, eu aprendera no exército que não se abandona um companheiro.
Ou se vence ou se morre com ele, em um campo de batalha.
Mas, devo confessar que morrer com um companheiro em um campo de batalha, nunca me agradou muito.
Eu preferia a idéia de arrastar seu corpo comigo, mas continuar vivo.
E foi o que fiz com Gaspar, quando o vi sentar e dizer : "Não vai dar, desisto. Tô morto, cara."
Nesta hora ele já havia retardado seu passo à muito, eu é que fingira não perceber, na esperança de que ele continuasse a me acompanhar.
Voltei até ele e lhe disse que, agora que faltava pouco ele ia desistir?
Lógico que isto estava longe de ser verdade.
Tínhamos uma boa etapa ainda por enfrentar.
Ele ainda insistiu que pra ele não dava mesmo.
Aí, fui obrigado a partir para a ameaça e a chantagem.
Minha última rajada.
Disse que eu iria adiante, com ou sem ele, até o topo.
Esta foi a ameaça.
E, que ia ser muita sacanagem eu chegar, lá em cima, e não poder registrar, com fotos, a conquista. Já que, a máquina fotográfica estava em sua mochila.
Fui falando, virando-lhe as costas, e prosseguindo em passo mais apertado a minha subida.
Assim, ele não teria tempo de retirar a câmera da mochila e me entregar.
E, esta foi a chantagem.
Eu conhecia bem o meu amigo. Era só uma questão de tempo.
Ele ainda ficou alguns segundos sentado, afinal o coitado tava mesmo cansado, depois levantou e me alcançou.
Como eu disse : preferiria arrastar seu corpo comigo, mas continuar vivo.
E o arrastei com minhas palavras. Mas, ele que transportasse a carcaça com as suas próprias pernas.
Terminamos nossa subida ao Moxuara, e fizemos nosso registro.
Guardo as fotos, hoje, em um baú.
A lembrança da aventura trago na memória, e aqui a transcrevo.
O amigo, ainda querido, tenho-o sempre guardado no peito.
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