" TINA "

                         Tina, como chamávamos nossa mãe, sempre foi uma pessoa generosa e solidária.
                         Todos na vizinhança, e na família, lhe tinham muito carinho e estima.
                         Se alguém chamasse ao portão lá de casa solicitando ajuda, ela sempre lhes atendia fornecendo alimentos, ou vestimentas, que já eram mantidas limpas e separadas, para estas ocasiões.
                         Mas tina, não tuinha só o seu lado dócil.
                         Como toda balança que, para manter o equilíbrio perfeito, precisa que suas duas bandejas tenham o mesmo peso, ela não era diferente.
                         Vou lhes contar a história :
                         Nossa casa estava em reforma.
                         Como meu pai trabalhava em horário administrativo, e nós tínhamos entre oito e dezesseis anos, Tina era a encarregada de administrar a obra, e zelar para que não faltasse material para os pedreiros.
                         Ela se organizou da seguinte forma :  Na parte da manhã, com a nossa ajuda, tinha a arrumação da casa, preparação do almoço e pedido de material ao depósito.
                         À tarde, enquanto estávamos na escola, ela fazia pães, bolos, e recebia o caminhão do depósito que deixava o material em frente de casa, sobre nossa calçada.
                        Quando chegávamos da escola tudo era guardado, imediatamente, por nós.
                        Aconteceu que um dia, assim que o caminhão descarregou o material e foi embora, Tina ouviu alguém chamá-la ao portão.
                        Saiu para atender e viu que era um de nossos viznhos.
                        Vamos aqui chamá-lo de "Seu Irineu". Em alusão ao famoso personagem de "A Grande Família", visto que este senhor, também, era um fiscal da prefeitura.
                         Assim que  assomou à porta, "seu" Irineu já foi lhe dizendo : " D. Albertina, eu vim aqui lhe entregar esta notificação de multa, pelo material que está depositado sobre a calçada obstruindo-a. Atrapalhando o ir e vir das pessoas desta rua".
                        Tina ficou num misto de surpresa e indignação pela atitude tão anti-social daquele senhor, seu vizinho.
                        Ainda que já lhe fosse difícil ,àquela altura, argumentar, pois seus nervos lhe pediam uma outra atitude, disse-lhe que só faltavam duas horas para que seus meninos chegassem e, como sempre faziam, guardariam e varreriam toda a frente da casa, deixando a rua, novamente, desobstruída e limpa.
                        Seu Irineu então lhe reafirmou sua disposição em não aguardar, e multá-la. Pois, infelizmente, não teria como voltar atrás.
                        Era o seu dever.
                        E, destacando a multa, estendeu-a para ela.
                        Tina não mais se conteve e, num rompente de nervos, mandou que ele fosse à pqp.
                        Que fizesse um bom uso daquele papel no banheiro de sua casa.
                        E outros impropérios que não conveem que aqui sejam ditos.
                        Virou-lhe as costas e entrou em casa, deixando Seu Irineu perplexo com tão inesperada reação de sua amável vizinha.
                        Colocou então o bilhete da multa na varanda, e foi para a sua casa.
                        Quando chegamos da escola fizemos o que minha mãe havia dito.
                        Guardamos e limpamos toda a frente da casa. Livre de qualquer vestígio de material de contrução.
                        À noite, meu pai chega do serviço e pergunta à minha mãe o que ocorrera, à tarde, entre ela e o senhor Irineu.
                        Ela, ainda revoltada lhe relata, em detalhes, todo o ocorrido da tarde.
                        E, ao terminar lhe pergunta como ele já chegara em casa sabendo do atrito entre ela e o senhor Irineu.
                        Meu pai lhe disse que Seu Irineu o havia parado na rua, e lhe contado o ocorrido, mas sem os detalhes. Na verdade dissera que havia ocorrido um mal entendido entre ambos. E, como era uma pessoa "evangélica", não poderia ficar em desavenças com um irmão. Embora nossa família fosse católica. Pois, éramos todos filhos do mesmo Senhor.
                       Queria permissão para ir à nossa casa para dizer, à Tina, que a perdoava pela sua atitude inadequada, da tarde. Que não lhe guardava nenhum rancor.
                       Tina quis saber que resposta meu pai lhe dera. Ao que ele lhe respondeu :
                       "Disse-lhe que seria melhor que ele não se aproximasse de voce. Que suas palavras foi sua parte leve e controlada. Pois, com tantos tijolos ao seu alcance, ele teve sorte em sair ileso."
                       Tina deu um sorriso, que meu pai interpretou como aprovação às suas palavras.
                       Mas, para nós, aquele sorriso nos dizia : "Bem que não teria sido uma má idéia."
                      
                      
  

" EMBATE "

                         Sempre aprendemos algo observando os animais.
                         Vi, certa vez, a filmagem de uma búfala que pastava tranquila, e solitariamente, com seu filhote, à beira de um riacho.
                         Derrepente são atacados por um leopardo.
                         Mãe e filhote correm para se salvarem de tão terrível predador.
                         A mãe consegue se safar.
                         Seu filhote, sem ter a mesma sorte, é atingido por uma patada, que o arremessa para dentro do riacho.
                         Ele se debate para evitar a mordida fatal, em seu pescoço.
                         A mãe ainda volta para tentar salva-lo, ainda que arrisque a própia vida para isso.
                         Mas, é rechaçada pela fera.
                         O filhote, ainda em desepero, vê a mãe abandoná-lo, e desaparecer na espêssa mata à sua frente.
                         O leopardo, agora sim senhor absoluto da situação, ajeita então a sua vítima para lhe desferir a derradeira mordida.
                         Porém, antes que a execute, é surpreendido pelo retorno da mãe..., seguida de toda a manada. Que forma uma densa massa de búfalos ameaçadores, à sua frente.
                         Surprêso este alivia a pressão sobre sua prêsa, que ao ver o reforço buscado por sua mãe, e sentir a diminuição das patas sobre si, aproveita o instante para se levanntar, e adentrar naquela massa negra, que se abre, gradativamente, `a sua passagem, para protegê-lo.
                         Assim que o filhote é posto em segurança, todo o grupo, como se fosse um só animal, parte para cima de seu predador. Que agora se vê obrigado a se retirar, diante de tão grande demonstração de união e força.
                         Imaginei ali, o filhote, como uma pessoa que luta contra uma dependência química qualquer. No caso representada pelo leopardo.
                         A búfala mãe, e seu bando, como os familiares e amigos, que acreditam, embora o filhote não mais acreditasse, assim como também muitos dependentes não acreditam, que suas vidas sempre teem uma chance de serem salvas.
                    Porém, de nada adiantaria a união do grupo, se o filhote não tivesse se levantado com suas próprias pernas e buscado o refúgio seguro.

" O MOXUARA "

ahou                         A minha avó sempre morou numa área rural. Uma chácara.
                         Na verdade, sempre me pareceu mais um sítio, dado à quantidade de terra que o compunha.
                         Bem ao fundo dessas terras existe uma montanha: o "Moxuara".
                         Esta montanha é uma enorme pedra, composta de uma densa mata intercalada por vegetação rasteira.
                         De seu topo consegue-se ter a vista de quatro cidades, que ficam a um raio de cinquenta quilômetros de distância.
                         É preciso muita determinação para se chegar ao seu cume.
                         E foi com esta "suposta" determinação que eu, e meu amigo Gaspar, resolvemos desbravá-lo.
                         Mochila às costas. Barraca Sioux atravessada ao corpo, passamos antes  na casa de minha avó.
                         Minhas tias tentaram nos fazer desistir daquela, louca, empreitada. Pois, nunca elas souberam de alguém que o havia subido.
                        Para nós, saber disto, era um aditivo a mais.
                        Falaram das possíveis cobras que poderíamos encontrar.
                        Do horário impróprio, era pouco mais de meio dia. Poderia escurecer e estarmos lá em cima.
                        Ainda assim, fomos.
                        Estávamos determinados a tirar fotos de uma bela paisagem, que só nós teríamos.
                        Romper a primeira etapa de mata até que não nos foi muito difícil. Mas, em seguida viriam somente partes íngremes.
                        Teríamos que escalar em paredes de pedra.
                        Foi, justamente, nesta parte de pedra, que compõe um terço da montanha, que meu amigo começou a perder sua determinação.
                        O seu espírito aventureiro começou a ser denegrido pelo cansaço.
                        Mas, ainda havia muita montanha para ser vencida. E não ia ter graça eu vencê-la, deixando meu amigo para tráz.
                        Afinal, eu aprendera no exército que não se abandona um companheiro.
                        Ou se vence ou se morre com ele, em um campo de batalha.
                        Mas, devo confessar que morrer com um companheiro em um campo de batalha, nunca me agradou muito.
                        Eu preferia a idéia de arrastar seu corpo comigo, mas continuar vivo.
                        E  foi o que fiz com Gaspar, quando o vi sentar e dizer : "Não vai dar, desisto. Tô morto, cara."
                        Nesta hora ele já havia retardado seu passo à muito, eu é que fingira não perceber, na esperança de que ele continuasse a me acompanhar.
                        Voltei até ele e lhe disse que, agora que faltava pouco ele ia desistir?
                        Lógico que isto estava longe de ser verdade.
                        Tínhamos uma boa etapa ainda por enfrentar.
                        Ele ainda insistiu que pra ele não dava mesmo.
                        Aí, fui obrigado a partir para a ameaça e a chantagem.
                        Minha última rajada.
                        Disse que eu iria adiante, com ou sem ele, até o topo.
                        Esta foi a ameaça.
                        E, que ia ser muita sacanagem eu chegar, lá em cima, e não poder registrar, com fotos, a conquista. Já que, a máquina fotográfica estava em sua mochila.
                       Fui falando, virando-lhe as costas, e prosseguindo em passo mais apertado a minha subida.
                       Assim, ele não teria tempo de retirar a câmera da mochila e me entregar.
                       E, esta foi a chantagem.
                       Eu conhecia bem o meu amigo. Era só uma questão de tempo.
                       Ele ainda ficou alguns segundos sentado, afinal o coitado tava mesmo cansado, depois levantou e me alcançou.
                       Como eu disse : preferiria arrastar seu corpo comigo, mas continuar vivo.
                       E o arrastei com minhas palavras. Mas, ele que transportasse a carcaça com as suas próprias pernas.
                       Terminamos nossa subida ao Moxuara, e fizemos nosso registro.
                       Guardo as fotos, hoje, em um baú.
                       A lembrança da aventura trago na memória, e aqui a transcrevo.
                       O amigo, ainda querido, tenho-o sempre guardado no peito.
                      
                

" INTROSPECÇÃO "

                         O escuro da noite, noite de nossas vidas, nos assusta.
                         Assim, ansiamos então pela luz do dia.
                         Solução de nossos problemas.
                         Mas, de manhã, assim que o sol surge, e o clarão de seus raios nos permite à tudo enxergar, protegemos nossas vistas com as própias mãos, razão de nossa consciência e entendimento.
                        Obstruindo assim parte de sua luz, nossa percepção da verdade.
                        Quando não, toda ela.
                        E continuamos às cegas.
                        Nós, e só nós, conhecemos as soluções para nossos problemas.
                        Falta-nos, às vezes, coragem para enfrentá-los...e resolvê-los.

" A CORRIDA "

                         No ano seguinte ao que saí do exército,num domingo, eu estava tranquilamente em casa quando o telefone tocou e minha mãe atendeu.
                         Me passou o telefone dizendo que era meu amigo Gazolla.
                         Gazolla vivia em uma cidade à cento e cinquenta quilômetros da minha. e era um dos melhores amigos de farda que eu tive.
                          Atendi.
                          Ele ligara para me informar que, pelo aniversário de sua cidade, haveria uma meia-maratona. Para a qual ele já havia feito a minha inscrição.
                          Achara, à princípio, um bom motivo para que eu o visitasse.
                          Ora, no quartel eu havia feito parte da equipe de corredores e, embora inesperado, me agradou o "convite". Já que eu continuava a fazer as corridas de rua.
                           Só que, na semana da prova aconteceu um imprevisto: gripei.
                           Mas gripei tão forte, que até tosse veio junto.
                           Ainda assim achei que estava tudo bem. Valeria o passeio, pela visita ao amigo.
                           Um dia antes da prova apanhei o ônibus, e segui para sua cidade.
                           Ao chegar lá ele me aguardava com mais cinco amigos... e uma surprêsa.
                           Um dos caras, ao me ver descer do ônibus, perguntou ao Gazolla: "É este seu amigo corredor que vai competir com o Alex ?".
                           Alex, ele me contou depois, era um rapaz conhecido na cidade por sempre participar das corridas de rua das redondezas. E que, numa festa dias antes, desafiara o Gazolla, por ele ter acabado de sair do quartel, para a meia-maratona da cidade.
                           Ao que Gazolla lhe respondeu: "Eu não ganho de voce. Mas, tenho um amigo que voce não consegue acompanhar nem a poeira."
                           Pronto. Gazolla acabara de me ferrar.
                           Para piorar, a galera dele havia apostado em mim sem nem mesmo me conhecerem.
                           Tentei explicar minha péssima condição de saúde mas, não adiantou.
                           Haviam pôsto dinheiro na aposta, e contavam que eu não os decepcionaria.
                           Sem ter mais como argumentar, só me restava tentar completar todo o percurso da corrida.
                           Reforcei os comprimidos anti-gripais, à noite, e dormi cedo.
                           De manhã me alimentei pouco.
                           Dei uma boa limpada nas nasais, e fui para a linha de largada.
                           Eram trezentos e poucos competidores, mas somente um deles me interessava.
                           Pensei comigo: "Vamos estudar as passadas do caboclo(Alex), e ver aonde vai dar para tentar ultrapassá-lo".
                           Ou seja, minha tática seria segui-lo à meia distância e, como o meu forte eram as subidas, torcia para que fosse o seu fraco.
                           Foi dado o tiro de largada, e o tal Alex saiu numa disparada que, apesar de me deixar bem para trás, também me deixou feliz, apesar do Gazolla e seu amigos terem ficados preocupados.
                           Pois, pela sua arrancada percebi que o coitado não sabia de minha precária condição física, e estava temeroso em perder.
                           Ele, com certeza, não chegaria à metade da corrida, naquele rítimo. Bastaria eu me manter visível à ele, quando olhasse para trás.
                           Oito quilômetros à frente avistei uma boa subida. Então, fui me aproximando mais ameaçadoramente.
                           O infeliz, sem saber que eu fazia das tripas pulmões, para respirar, apertou mais ainda seu passo e, sucumbiu ao excesso de esforço.
                           Disfarcei meu próprio sacrífício, e fiz a virada da subida. Não antes, é claro, de olhar para trás, e vê-lo desistir.
                           Entrou em um ônibus, que acompanhava a prova recolhendo os exaustos retardatários.
                           Passei, então, a desfrutar a corrida, apenas pelo prazer de conhecer e interagir com os outros participantes.
                           Nada ganhei. Pois, minha classificação foi muito aquém das premiações.
                           Mas, meu amigo Gazolla, e sua turma, se deram bem na aposta.
                           Eu fiz muitas novas amizades naquele dia. Pessoas que encontrei em outras corridas depois.