" ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DE UM RIO "

                         Em meu tempo de escola eu costumava perder, melhor dizendo: "ganhar", meu tempo de recreio na biblioteca.
                         Adorava qualquer tipo de literatura saudável.
                         Às vezes escolhia os livros por seu autor.
                         Outras vezes porque alguém o lera e gostara.
                         Mas, muitas vezes os escolhia pelo título.
                         Foi assim que um dia me deparei com o título:"Enterrem meu coração na curva de um rio".
                         Achei o título poético.
                         A sua sinopse era muito interessante.
                         Depois de lê-lo não me decepcionei, achei-o muito bom.
                         Eram histórias contadas por vários chefes indígenas, norte americanos, sobre a vida das suas tribos. Suas tradições,  e a visão que tinham sobre o futuro extermínio de sua raça, pela ganância do homem branco.
                         Mais tarde vim a ler "A carta do índio".
                         Nela encontrei toda a sabedoria, inteligência e visão do grande chefe "Touro Sentado".
                         Nos dois casos mergulhei, de alma e coração, nos personagens desses chefes.
                         Senti as suas dôres, esperanças... e tristezas, pelo futuro que aguardava por seus povos.
                         Também eu passei a olhar a natureza com seus olhos.Senti-la com seusespíritos. E,entendê-la com seus corações.
                         Aprendi a respeitar mais a floresta, e seus animais, que aos homens.
                         Pois, da floresta e seus animais sempre sei o que esperar, enquanto que,  dos homens...
                    

" MEU ENCONTRO COM UM ANJO NA CALÇADA "

                         Há certas situações que nos surpreendem.
                         Gosto quando algo me acontece para ensinar ao espírito.
                         Foi o que me aconteceu naquele dia, quando me aproximava da entrada de um restaurante, para jantar após um dia exaustante, e desgastante, de serviço.
                         Um menino, de aproximadamente doze anos, se interpôs em meu caminho, e me pediu que lhe pagasse um marmitex.
                         Não se encontrava muito sujo. Porém, estava bastante maltrapilho.
                         Tinha os olhos um tanto esbugalhados. Típico das crianças mal alimentadas.
                         O que era-lhe notório, devido seu corpo esqueléticamente subnutrido.
                         Não tive dúvida em lhe atender ao pedido.
                         Só lhe pedi que aguardasse ali mesmo, na calçada.
                         Sabia, e temia, que se ele entrasse no estabelecimento pudesse ser expulso com uma certa rudeza, por parte de algum funcionário.
                         Por isso entrei só, e pedi que me preparassem um marmitex grande, e completo.
                         Como sou conhecido do estabelecimento, sabia que caprichariam, pensando ser, realmente, para mim.
                         Vi o exelente preparo, e a generosidade na quantidade de comida colocada no vasilhame térmico.
                         Depois de pronto, ele me foi entregue.
                         Agradeci e me encaminhei diretamente à calçada, e o entreguei ao menino.
                         Ele me agradeceu com muita sinceridade na voz, e em toda sua expressão do olhar.
                         Mas, para minha surprêsa ao invés de sentar e comê-lo ali mesmo, pegou e ajeitou-o, com todo o cuidado, na garupa de sua velha bicicleta, que só agora eu percebera existir.
                         Perguntei-lhe por que não a comia ali mesmo?
                       
                         Ao que ele me respondeu:
                       " Minha mãe, e meu irmãozinho, estão em casa me esperando.
                         Só saí para ver se conseguia alguma coisa pra gente comer."
                        
                       Montou em sua bicicleta, e sumiu rua abaixo.
                       Me deixou em pé, na calçada, a admirar seu amor e zêlo por sua família, enquanto desaparecia na escuridão da noite.

" À PROCURA DE WALLY "

                          Havia a mais tempo, ou ainda há, disso não posso dar certeza, um joguinho que vinha em uma  revista, cujo objetivo era se descobrir onde Wally, um personagem, se encontrava na cena.
                          A cena podia ser a foto de uma platéia de circo.
                          O centro tumultuado urbano de uma cidade, onde se confundiam prédios, pessoas, carros e tudo o mais de direito.
                          Wally podia estar em qualquer lugar.
                          Num carro. Na lanchonete. Na multidão.
                          As probabilidades eram imensas.
                          Muitas vezes em minha vida, quando algum problema se fazia fortemente presente, e eu me perdia em busca de sua solução, indubitavelmente este joguinho me retornava à mente., em um socorro à minha necessidade iminente.
                          Aí, eu parava. Olhava a situação como um todo, como se eu própio não fizesse parte da cena que via, e me perguntava : "Onde está Wally?"
                          No caso, Wally significava a solução para o meu problema.
                          Mas, errôneamente o procurando como solução, vim a descobrir, mais tarde, que Wally se encontrava, exatamente, no lado oposto ao que eu o procurava.
                         Wally mostou-se estar na origem de meus problemas.
                         Ou seja, de pouco ou nada adianta ignorarmos uma situação, acreditando que ela, por si só se resolverá.,passará, ou ainda, cairá no esquecimento, fazendo com que a vida continue fluindo.
                         Que podemos simplesmente observá-la, como se à ela não pertencessemos, ou ela à nós.
                         É lêdo engano atitude tão covarde.
                         As marcas, as mágoas ou os ressentimentos, permanecerão incubados.
                         Um dia, por qualquer que seja o motivo, elas podem eclodir. E se apresentarem como uma doença devastadora. Incurável. Fatal.
                         Então, o que nos resta a fazer é procurarmos por Wally no fato que iniciou o nosso problema.
                         Talvez tenha sido uma palavra mal dita, num momento impróprio.
                         Talvez, antes de sermos feridos, tenhamos ferido sem intenção. Sem percebermos.
                         Cabe-nos, então, retrocedermos àquele momento, e pedirmos perdão pelo ato, ou palavra dita.,impensada, à quem magoamos. Ou ferimos.
       

" REFLEXOS "

    
                          Quando a saudade aperta o peito...
                          Escrevo.
                          Não o que sinto,
                          Ou o que vejo.
                          São somente palavras soltas que,
                          Depois,
                          Ao lê-las,
                          São,
                          Como nas noites ,
                          Pequenas estrelas.

" O CASO ZÉ LUIZ "

                         Minha tia Dóxia morava em um bairro próximo ao nosso.
                         Sua casa possuia um belo quintal com mangueiras, castanheiras e outras frutas.
                         Numa generosa parte deste quintal, um cercado, reinava soberano o galo "Zé Luiz".
                         Nenhum de nós entrava em seus domínios. Pois ele defendia seu espaço com carreiras e bicadas, ao invasor.
                         Porém um dia Zé Luiz, o galo, começou a ter problemas com uma gangue que lhe saqueava parte do alimento, pôsto por minha tia, para sustento seu e de suas seis espôsas galináceas: a "gangue dos pombos".
                        Minha tia então pediu ajuda à única equipe capaz de resolver tal tipo de problema : "A Equipe Filhos e Sobrinhos".
                        Eu meu irmão e meus primos fizemos então um levantamento da situação, e procuramos a melhor forma de resolvê-lo.
                        Fizemos nossa planilha tática para agirmos por etapas.
                      
                        " Etapa 1" : Capturar os Pombos.
                        " Etapa 2" : Não sermos descobertos pelo vizinho que os criavam.
                        " Etapa 3" : Remover os elemento invasores, capturados, para um lugar onde não lhes fosse possível retornarem, de modo a não levantarmos suspeitas.
                       
                        Éramos totalmente contra a execução de qualquer dos prisioneiros feitos.
                        Foi em um domingo, em que fomos à casa de minha avó, distante dez quilômetros,que descobrimos o lugar perfeito para ser a nova morada dos elementos capturados.
                        Sempre que íamos à casa de minha avó de ônibus, descíamos em um ponto onde precisávamos caminhar mais tres quilômetros para chegarmos.
                        Esta parada de ônibus era próxima de onde minha tia Raque trabalhava. E, naquele domingo, ao passarmos no trabalho dela para visitá-la, e lhe pedir sua benção, ela nos levou ao fundo da loja para nos mostrar a mais nova "invenção" de seu patrão : criação de pombos.
                        Nossos olhos brilharam na hora.
                        Um sorriso de : "Isso, esse é o lugar ", surgiu em cada carinha nossa.
                        À cada domingo seguinte fizemos a doação de dois novos pombos à criação de seu patrão.
                     
                       A tática:
                       Meus primos armavam uma arapuca nos domínios do Zé Luíz, de manhã, deixando-o preso em um cercadinho.
                       Assim, quando um dos meliantes era capturado, eu e meu irmão, ao virmos da escola, passávamos por lá e o transportávamos, em nossa sacola, para nossa casa, em outro bairro.
                       No domingo seguinte, dois desses invasores capturados eram transportados de ônibus até sua nova morada.
                     O vizinho de minha tia, óbvio, percebeu que sua população de pombos começou a se reduzir consideravelmante.
                     Passou então a criá-los presos. E, posteriormente os transferiu para outro lugar mais seguro. Visto que, sempre qie os soltava, um não lhe retornava.
                     Como em nossa região haviam muitos gaviões supôs serem o motivo dos desaparecimentos.
                     Tia Dóxia ficou feliz por não ter tido que entrar em atrito com um de seus vizinhos.
                     Ó Zé Luiz pôde voltar a circular por seus domínios, com suas seis espôsas, tranquilamente,sem ter que se preocupar em defender seu alimento da gangue dos pombos.
                     A equipe "Fihos & Sobrinhos" recebeu de recompensa, pela remoção de quatorze elemento invasores, suco e biscoitos num café da tarde.

" OS DONOS DA LUZ "

                         Ainda era madrugada quando acordei.
                         Havia perdido o sono. Na verdade durmo muito pouco. Então, saí à varanda para apanhar o frescor daquele final de outono.
                         Meu penssamento vagava sem rumo certo.
                         Nos postes da rua insetos inocentes, e hipnóticamente, se encantavam com o brilho traiçoeiro, daquela luz. E tentavam alcançá-la, antes que outro lhe chegasse à frente.
                         Quando conseguiam, e  muitos naguela ânsia alucinógena o conseguiam, caím ao chão com suas asas queimadas. Outras vezes eram seus própios corpos.
                         Alguns, após aquela "conquista", ainda podiam rastejar pelo chão. Outros,porém, ficavam a se contorcerem. E Outros, ainda,simplesmente ficavam inertes. Sem vida.
                         A doce ilusão dos insetos também é a mesma estúpida ilusão dos homens.
                         Em sua busca pelo "brilho  ilusório do sucesso", em suas ambições, dexam para trás amigos, famílía, religião... o amor.
                         A essência de toda a  existência humana.
                        
                      

" UM DIA É DO TOURO... "

                         Sempre que íamos à casa de minha avó, eu, meus irmãos e nossos primos, andávamos juntos todo o tempo, procurando com o que nos divertir.
                         E isso sempre nos levava à uma boa aventura.
                         Não foi diferente aquele dia em que resolvemos ir ao Mochuara, uma montanha que existe por lá.
                         Caminhávamos pela estrada de terra ora olhando pássaros e animais silvestres, ora outros bichos quaisquer.
                         Ao longo da estrada haviam muitos pequenos sítios. Visto que era uma área totalmente rural.
                         Foi exatamente no pasto de um desses sítios que nós o avistamos.
                         Pastava tranquilamente, e só.
                         Ele não tinha uma cara de bons amigos. Talvez por isso tenha nos interessado ainda mais.
                         Tiramos a "sorte", no par ou impar, para ver qual de nós seria o corajoso à entrar em seu cercado, e o desafiar para uma "tourada".
                         Devo confessar aqui que todos nós estávamos receosos em desafiá-lo. Pois, se houvesse algum corajoso entre nós, não havreia necessidade do par ou impar. Nem ficaríamos felizes em perder a disputa.
                         Pois bem, meu irmão "ganhou" o privilégio do desafio.
                         Tirou a camisa, e passou por debaixo da cerca de arame farpado.
                         Foi pé anti pé se aproximando, sacudindo sua camisa, e chamando o touro baixinho.
                         Como o animal, à princípio, o ignorasse, apesar que de vez em quando virava a cabeça para olhá-lo, o que fazia com que meu irmão nessa hora desse uma parada, ele foi tomando confiança e desafiando o touro com voz cada vez mais alto.
                         Nós, do outro lado da cerca, o incentivávamos, cada vez mais, a ir em frente.
                         Derrepente, sem aviso prévio, o touro disparou em sua direção.
                         Meu irmão, quando pensou em correr em nossa direção, como que a nos pedir socorro, já não nos viu na cerca.
                         Parecíamos filhos do vento, à levantar poeira estrada afora, devido à ligeiresa de nossas bambas pernas.
                         Meu irmão, coitado, quando se viu só, desconsiderado-se seu amigo touro, correu em direção à cerca, com o animal bufando à sua captura.
                         Ninguém, nem mesmo ele, sabe explicar como ele ultrapassou o arame da cerca. Se por cima ou por baixo. O certo é que ele a ultrapassou sem se arranhar. E, seguiu correndo para nos apanhar.
                         Só que, o danado do touro não desistiu dele.
                         Rompeu a frágil cerca no peito e continuou em seu encalço.
                         Quando olhamos para trás e vimos meu irmão tentando nos alcançar, e o touro tentando alcançar meu irmão, nos jogamos nos matos laterais à estrada, e gritamos para ele : "Num pára não, num pára não. Continua correndo. Continua correndo."
                         Nunca tínhamos visto meu irmão correr tanto, quanto naquele dia.
                         Meu irmão e o touro passaram por onde estávamos, e sumiram na curva da estrada.
                         Mais tarde o encontramos, na casa de minha avó, todo "lanhado".
                         Para se desvencilhar daquele "touro maluco", ele correra rumo a um barranco, já nosso conhecido de outras brincadeiras, e se jogou lá embaixo.
                         O touro ficou lá de cima a bufar, e vê-lo se afastar.
                         Naquele dia  aprendemos que: "Um dia é do touro... , e este, é o mesmo dia da gente correr".