" O VIRA-LATAS "

                         Eu estava retornando da escola, concentrado em meu sapato novo, todo feito em borracha prêta alpargata, quando entrei por aquela rua.
                         Senti um silêncio inquietante no ar.
                         O vento levantava poeira, na rua deserta.
                         Era como se eu pressentisse que algo de muito perigoso estivesse para acontecer.
                         Meus sentidos, imediatamente, me deixaram em estado de alerta.
                         Eu dava, cada passo, com mais cautela.
                         Como que a escolher onde colocar o pé.
                         Tipo um soldado a caminhar por um campo minado.
                         Assim, com o olhar a percorrer cada centímetro daquela rua, fui por ela avançando lentamente.
                         Esperava que, com um pouco de sorte, conseguisse atravessá-la sem surpresas. E aí, passaria aquela estranha sensação que me atormentava.
                         Agora só me faltava vencer a distância de umas poucas casas.
                         Porém, quando eu já me encontrava à quatro casas para terminá-la, passei em frente a um portão entreaberto.
                         Foi de lá que ele surgiu.
                         Não era grande.
                         Nem mesmo feio.
                         Mas, o danado era determinado.
                         E, demonstrava muita vontade de morder meu calcanhar.
                         Correu em minha direção com um apetite tão voraz, que fui obrigado a abandonar meu material escolar ali mesmo, no meio da rua, e correr o máximo que pude para evitar que  aquela fera, de pouco mais de um palmo de altura, concretizasse sua canina intenção.
                         Corri. Corri como que para salvar minha própria vida.
                         Não sei, e até hoje não entendo, como que aquelas pernas tão curtinhas podiam ser tão mais rápidas que as minhas, cinco vezes maiores.
                        Só posso deduzir que o motivo é porque eram quatro, e eu só possua duas.
                        Deve ser isso sim, a explicação para tanta velocidade.
                        O fato é que ele se aproximava dos meus calcanhares rápida, e ferozmente.
                        Quando percebi que não conseguiria escapar ao seu ataque, corri em direção a um portão de grade, e  saltei nele, para fugir àquela inevitável mordida.
                        Afoito por subir na grade não me firmei direito, e minhas mãos escorregaram.
                        Derrepente me vi no ar, caindo rumo ao chão.
                        Sem ter como evitar a queda, já imaginei a sena final.
                        Mas, nunca fui muito bom em imaginar senas finais. Pois, diferente das mordidas que aguardava sofrer, quando chegasse ao chão, o que aconteceu foi que caí sobre um dos braços, fraturando-o.
                        Enquanto me preocupava com o braço, me esqueci do cão.
                        E me pareceu que o cão achou a minha dor, pelo braço fraturado, suficiente.
                        Pois, parou próximo à mim, e deu dois latidos.
                        Me olhou, agora em silêncio, virou-me as costas... e se foi.
                        Me levantei. Juntei meu material, e me fui.
                        Agora segurava um braço, que doía muito.
                        Por um bom tempo aquela rua deixou deser meu caminho para casa, ou para a escola.

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