" A VARINHA MÁGICA "

                          Eu estava sentado em uma sala de consultório médico com minha mãe, e nem sabia o porque da visita.
                         Ela, por algum motivo, desconfiara de algo com a minha saúde.Mas não me dissera qual era a sua suspeita.
                         Só sei que ela começou a me cercar de cuidados, e exigir que todas as outras pessoas, adultas ou crianças, não me contrariassem, nem me fizessem passar raiva.
                         Começou a me olhar com tristeza, e lágrimas nos olhos.
                         Chegou a nossa vez de sermos atendidos.
                         Entramos.
                         O médico nos fez várias perguntas enquanto me examinava.
                         Ora direcionadas à mim, ora à  minha mãe.
                         Fomos embora, com um monte de exames para eu fazer.
                         Dias depois, quando lá voltamos, ele deu seu diagnóstico : "Seu filho tem problemas no coração."
                         Para minha mãe foi muito pior do que dizer que ela possuía uma doença incurável.
                         Assim como o é para qualquer pai, ou mãe, quando se trata de um filho.
                         Ela, instintivamente, me abraçou, e chorou.
                         O médico chegou a lhe dizer que tínhamos que fazer mais alguns exames para verificar a gravidade da situação e, se fosse o caso, intervir.
                         Minha mãe nunca admitira , sequer imaginar, uma pessoa deitada em uma mesa, sendo aberta como um leitão no açougue.
                         Melhor que Deus me levasse como, e quando Ele o quizesse.
                         Este foi o pensamento dela. Porque o meu era muito mais simples, e curto, como imaginava que agora seria minha vida : "Vô morrer, já?"
                         No princípio eu  ficava imaginando, todos os dias logo que acordava, que aquele seria o meu último dia.
                         Mas isso, só na hora que acordava.
                         Quando eu saía para a rua para brincar, ou encontrava com meus primos, nem lembrava mais.
                         Só que , com o correr dos dias  eu vi que não morria. E, pior, percebi algo diferente : "eu agora podia tudo. Não apanhava mais. A culpa era sempre dos outros. Eu fazia... sem saber que era errado."
                          Que legal.
                          Aí eu virei um pestinha.
                          Meu erro foi acreditar demais nesta cômoda, pelo menos para mim, situação.
                          Eu me tornei o" Menino Intocável."
                          Para mim era como os poderes de um super herói, assim  como  "Super Man".
                          Mas, agia como um vilão, um "Dick Vigarista".
                          Perto da minha mãe minha "invulnerabilidade" funcionou muito bem. Mas, fui passear na casa de minha avó, e levei este comportamento comigo.
                          Foi o meu erro. Pois, lá havia uma criptonita para anular meu super poder.
                          Meu tio.
                          Próximo à casa de minha avó passava um rio. E, eu e meus primos resolvemos tomar um banho nele.
                          Neste rio havia um lugar onde as mulheres lavavam roupas, e vasilhas, em suas bacias.
                          Onde, se uma criança quizesse se molhar toda, tinha que deitar dentro dele, para que a água lhe passasse sobre os ombros. Ou seja, a sua "rasosidade" não passava dos trinta centímetros d'água.
                          Enquanto que, mais abaixo, havia o lugar onde os homens tomavam banho.
                          Quer dizer, lá eu de pé,  a água me cobria com folga .
                          Como eram muitas crianças, meu tio se prontificou a nos acompanhar.
                          Chegando no rio ele nos disse que ficaríamos ali mesmo.Onde as mulheres lavavam as roupas e vasilhas.
                          Meus primos entraram no rio aceitando sua indicação.
                          Eu, simplesmente ignorei sua ordem, e continuei caminhando.
                          Ele me segurou pelo braço, e me perguntou aonde eu pensava que estava indo.
                          Disse-lhe que iria tomar banho na parte dos homens. Pois, eu não era roupa, nem mesmo vasilha para tomar banho ali.
                          Detalhe : eu não sabia nadar.
                          Mas, isto era o de menos,o problema é que eu o havia desafiado.
                          Meus primos ficaram sentados dentro d'água, quietos. Pois, já sabiam o que me aguardava. E eu nem desconfiava.
                          Depois de debater com meu tio com palavras, palavrinhas e palavrões, ele, quando cheguei à esta última categoria de palavras, não pensou duas vezes : me arrastou para dentro d'água, onde estavam meus primos, me afundou, para que eu ficasse todo molhado, arrancou uma varinha no pé de ingá, que havia à beira do rio, e me marcou pernas, e nádegas, fazendo vários vergões.
                         Em desespero eu lhe pedia para que parasse, pois eu sofria do coração e poderia morrer.
                         Mas, dele eu só ouvia uma frase : "Agora voce vai ver como é que se cura coração de moleque malcriado."
                        E a varinha trabalhou em mim, molhado, por um tempo que me pareceu uma eternidade.
                        Quando voltei para casa minhas malcriações haviam desaparecido. E, um novo exame comprovou que o meu problema cardíaco também.
                        Lembrei-me imediatamente de meu tio, e sua bendita "varinha mágica", que me curou.

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