" UMA CACHORRINHA CHAMADA PURURUCA "

                        Morei em uma república com mais cinco rapazes.
                        Tínhamos todos o mesmo tipo de serviço.E, durante algum tempo, pertencíamos à mesma letra na escala. Ou seja, folgávamos no mesmo dia da semana.
                        Como era escala, a nossa folga variava nos dias da semana.
                        Por este motivo não me lembro como começou. Mas, todas as vezes que saíamos de serviço na sexta-feira, folgando sábado e domingo, promovíamos uma luta de vale-quase-tudo, na sala da república.
                        A regra consistia em não morder, não socar o rosto, e nem dar golpes baixos.
                        Que os hematomas nos ficassem em regões escondidas das vistas.
                        Este vale-quase-tudo servia para desestressar.
                        Só que houve uma semana em que nem o nosso vale-quase-tudo republicano não conseguiu desestressar dois de meus companheiros : o Tavares e o Rocha.
                        Nesses dias em que os dois estavam "bicudos" entre si, o Rocha foi fazer um extra no serviço.
                        O Tavares viu aí uma chance de atingir o Rocha. E me envolveu, "inocentemente", nessa história.
                        Eu tinha uma "bateia" e, de vez em quando, dava uma garimpada no rio.
                        O Tavares foi e me convidou para garimparmos, naquela manhã.
                        Óbvio que eu aceitei.
                        Aí, na hora em que saíamos ele disse : "Vem Pururuca, vem. Vamo passeá, vamo."
                        Pururuca era uma cachorrinha vira-lata que o Rocha criava como se fosse uma irmãzinha.
                        Tinha o maior amor e carinho pelo animal.
                        Ora, a Pururuca era muito acostumada com todos nós. E, na sua "inteligência canina", um passeio era muito melhor do que ficar correndo atrás de pneu de carro na rua.
                        Abanou o rabinho e foi, toda feliz, nos acompanhando.
                        Teríamos que caminhar uns três quilômetros para chegar ao nosso destino e, como havia chovido bastante à noite, haviam muitas poças dágua e barro.
                        Agora tente somar :  poças dágua + barro + a coitada da Pururuca, e voce vai começar a vislumbrar a vingança do Tavares contra o Rocha.
                        Cinco metros antes de cada poça, o Tavares pegava a pobre da cachorrinha nas mãos, a arremessava em direção à poça, e falava : "Piscina, Pururuca. Piscina."
                        Depois, explodia numa sonora gargalhada, enquanto a coitada, após um vôo desengonçado, aterrizava na poça à frente.
                        Repetiu o ato várias vezes, na ída e na volta. No máximo de poças que pôde.
                        Ao fim da jornada a infeliz já não andava mais de tão cansada.
                        Cheguei com ela ao colo, na república.
                        Quando o Rocha retornou do serviço, chegou na república chamando por sua amiga, que dessa vez não foi recebê-lo ao portão.
                        Por mais que o Rocha, como era seu costume, chamasse:"Pururuca. Pururuca, cheguei. Vem Pururuca, vem.", a sua Pururuquinha não apareceu.
                        Devido à canseira da aventura da tarde ela só acordou de seu desmaio no dia seguinte.
                        O  Rocha mexeu em suas patas, orelhas e focinho e a coitada não esboçou nenhuma reação.
                        O Rocha, naquele dia, ficou sem entender o que acontecera com a sua, tão estimada, Pururuquinha.
 

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