Trabalhei uma época no setor alfandegário.
Fazíamos revistas em portos, e aeroportos, à procura de contrabandos para sua contensão e apreensão.
Devido à dimensão das operações que fazíamos, éramos acompanhados pela polícia federal. Pois pertencíamos a um ramo da receita federal.
Ainda existia uma réstia do militarismo no governo. Por isso, todo o cuidado dos cidadãos ao que falar, onde e com quem, era primar pela sua integridade física.
Certo dia foi marcada uma manifestação dos "vermelhos" em frente ao Palácio do Governo, em nossa cidade.
Entendia-se por "vermelhos" todos os partidos de esquerda. Ou seja, todos contrários ao governo atuante.
Havia um rapaz que trabalava conosco, Nacib, que simpatizava, a princípio modestamente mas depois abertamente, com as idéias, e ideais, dos esquerdistas.
À todos eles a polícia federal os classificava de "comunistas".
Só que o Nacib começou a divulgar "suas idéias", na repartição.
Era, mais ou menos , como se uma ovelha entrasse no covil dos lôbos, e os tentasse converter à sua causa clamando,e conclamando todos eles, a saírem pela floresta gritando seu slogan: "TEMOS QUE ACABAR COM OS LÔBOS."
Levamos Nacib a um canto, e lhe dissemos que ali não era um bom lugar para divulgar seus novos ideais, nem agitar sua bandeira.
Naquele momento conseguimos convencê-lo a se calar.
Mas, dias depois ele voltou à carga, divulgando a manifestação que haveria em frente ao Palácio do Governo.
Dessa empreitada não conseguimos demovê-lo. Então, resolvemos alertá-lo sobre os federais, e os policiais civis que se infiltravam nesses movimentos para "mapear" seus simpatizantes.
Ele disse que facilmente saberia identificá-los, e diferenciá-los, dos verdadeiros companheiros militantes.
Então lhe falamos que isso seria como tentar identificar, em um mesmo copo, o café e o leite. Após misturados se confundem cores e sabores.
No dia da manifestação, Nacib estava lá.
Não foi ao trabalho.
Foi com uma roupa comum.
Nada o caracterizava como um membro daquela trupe.
Mas, em certa altura da manifestação das idéias e dos ideais, proclamados pela maioria, foi envolvido. E, sem que percebesse, o entusiasmo tomou-lhe conta do corpo e de sua alma.
Um "companheiro" lhe colocou uma bandeira à mão, e o incentivou a gritar palavras de ordem, contra a situação.
No dia seguinte Nacib não apareceu na repartição.
Não voltara para casa, após a manifestação.
Seus pais, parentes e amigos, logo imaginaram o pior.
Após onze dias, quando reapareceu, Nacib já não era o mesmo entusiasta de antes.
Trazia consigo, ematomas no rosto, costelas e rins.
Nada nos disse.
Aparentemente, abandonara a causa.
Soubemos mais tarde, por fonte segura, que, o "companheiro" que lhe havia posto a bandeira à mão, e o incentivado a gritar palavras de ordem era, na verdade, um infiltrado que trabalhava três andares acima do nosso, no sétimo andar.
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