" AFOGADO NO SECO "

                         Há pessoas que se debatem, e lutam muito, para não se afogarem numa reprêsa. Ou no mar.Ou onde quer que as águas lhe sejam mais profundas..., ou seu desespero em sair delas, lhe seja maior que suas próprias forças.
                         Milagrosamente algumas dessas pessoas conseguem se salvar e prosseguirem suas vidas.
                         Estas, nunca mais se deixarão pegar na mesma situação.
                         Aprendem a evitá-la.
                         Há porém outras que, ao tomarem um copo d'água, o primeiro gole lhe desce pela via errada.E, lhes corta a respiração.
                         Estas, morrem afogadas no seco.
                         Assim são as difernças entre as pessoas, e suas atitudes, diante dos problemas à enfrentar na vida.
                         Algumas sobrevivem à grandes tormentas, tempestades, ou furacões.
                         Outras se desesperam ao simples vislumbres de uma chuva mais forte.
                         Não devemos sofrer, nem nos entregar, ao nos surgirem os contra-tempos.
                         Eles nos fazem crescer, e aprender.
                         Tudo bem. Se voce quer, sofra duante o processo. Mas, faça uma breve pausa em seu despero,, analise, e continue lutando com todas as suas forças.
                         Ao final, voce verá que tudo é suportável..., e superável, quando  temos  calma e determinação para resolvê-los.
                         Não se deixe morrer afogado no seco
                       

" PINGO "

                  
                      " O que vale mais, a vida de um homem... ou a vida de um cão ? "

                        Quando criança fiz amizade no bairro com um menino de nome Pedrinho.
                        Ambos beirávamos os dez anos de idade.
                        Um dia, em nossas andanças pelo bairro, ficamos sabendo que a cadela de Dona Margareth havia dado cria a oito filhotes. E que ela os daria à quem se interessasse.
                        Fomos lá e, como crianças que éramos, gostamos de todos eles.
                        Eu já tinha um cão, então, não escolhi nenhum.
                        Mas, Pedrinho não tinha. Por isso, quando viu um cãozinho malhado, ficou maravilhado pelo bichinho.
                        Teve a promessa de Dona Margareth de que, se seus pais concordassem, assim que o filhote desmamasse ele seria seu.
                        Fomos embora, e Pedrinho estava radiante com a possibilidade de ser dono daquele cãozinho.        
                        Até já lhe arranjara um nome : " Pingo." Devido às manchas que possuía pelo corpo que, segundo ele, mais pareciam pingos de café, num prato de leite.
                        Chegou em casa e, timidamente, fez o pedido a seus pais.
                        O pai de Pedrinho, Seu Themístocles, era totalmente contrário a qualquer tipo de animal em sua casa. Mas Dona Rosa, sua mãe, com jeitinho, contornou a situação e convenceu o marido a aceitar que o filho tivesse o cãozinho como amigo.
                        Seu Themístocles acabou cedendo. Mas disse ao filho que daria fim ao bicho na primeira que ele aprontasse na casa.
                        Pedrinho, então, tomava todos os cuidados para que seu pai pouco notasse o cãozinho na casa.
                        Pingo acompanhava Pedrinho à todos os lugares.
                        Não se via Pedrinho sem se avistar Pingo a seu lado.
                        Aconteceu que um dia, ao chegar da escola, Pedrinho não foi recepcionado por seu amiguinho.
                        Procurou-o por todos os cantos... e não o encontrou.
                        Sua mãe, com lágrimas no olhos, veio lhe falar que, após seu pai encontrar os sapatos mastigados pelo cachorro, passou uma corda em seu pescoço, e o arrastou rua afora.
                        Pedrinho correu para ver se ainda alcançava o pai. Mas, já era tarde para evitar qualquer desgraça.
                       Soube, na rua, que o pai amarrara o pobre cão à linha do trem e ficara bebendo, esperando pelo desfecho da tragédia.
                       Por mais que o coitado do cão se debatesse para se libertar da corda, ou libertar a corda dos trilhos... tudo foi em vão.
                       Nem mesmo os pedidos  insistentes dos vizinhos  que assistiam à comovente cena, o demoveram  de seu objetivo.
                       Seu Themístocles só se retirou do local após o trem transformar, o infeliz cãozinho, numa massa disforme, de carne e sangue.
                       Pedrinho, após esse dia, nunca mais voltou a ser o menino que era antes.
                       Perdeu o brilho.
                       Perdeu a luz.
                       Perdeu, ali, sua infância.
                       Morreu naquele dia, junto com Pingo, seu companheiro inseparável, a criança alegre que era.
                       Seu Themístocles,com o passar dos dias, ao ver a tristeza do filho, foi tomando consciência do mal que causara.
                       Por isso ninguém soube explicar se foi a bebedeira, ou um possível suicídio, por desgosto ao ver a tristeza nos olhos do filho, que o levou à morrer, meses depois, atropelado por um trem, no mesmo lugar em amarrara o pobre Pingo.
                      
                       
                        
               
                       
                       
             

" Ô VELÓRIO "

                         Na minha família os velórios são um mixto de tristeza por quem partiu, e festa pela reunião familiar que um evento desta magnitude proporciona. Pois é a maior oportunidade de se reunirem os primos, e  outros parentes que moram mais distantes. Caso em que me incluo.
                          Cheguei do serviço aquele di, e minha esposa, com as feições de quem já havia chorado muito, me deu a notícia de que um primo meu havia falecido.
                          O coitado havia convivido com um cancer desde sempre e agora, na juventude de seus dezenove anos, fôra vencido.
                          Embora eu deva reconhecer, tenha sido um bravo guerreiro.
                          Partimos cedo no dia seguinte, pois o enterro seria à tardinha. E nossa cidade dista quatrocentos quilômetros da dele.
                          Não poderiamos, de forma alguma, deixar de comparecer e dar nosso apoio, com a nossa presença.
                          A casa estava repleta de parentes e amigos.
                          Com eu esperava primos de várias cidades, e que a tempos não os via, estavam lá.
                          Todos ficaram muito felizes ao nos verem.
                          Com vários pusemos, à meia-voz e com muito respeito à situação, alguns assuntos em dia.
                          Meu tio, na medida do possível, estava bem.
                          Seu pensar, comparadamente, sempre fôra como o de Jó : " Se alguma desgraça tem que acontecer a alguém... por que este alguém não pode ser eu ? "
                          Ao passo que eu, particularmente, sempre pensei o contrário : " Se alguma desgraça tem que acontecer a alguém... por que este alguém tem que ser eu ? ".
                          Bom, o fato é que à tardinha nos dirigimos ao cemitério para os ritos finais.
                          O cemitério, em questão, era um desses: " Parques da Paz ".
                          Totalmente gramado.
                          Capelas bem ventiladas.
                          Arborizado.
                          No chão plaquinhas fixadas, identificavam quem ali estava sob nossos pés.
                          Mas, o que mais me chamou a atenção foram as placas de orientações no caminho do cortejo à pé.
                          Uma dizia : " ENTRADA ".
                          Outra, mais adiante, informava : " SENTIDO ÚNICO ".
                          Aí me deparei com a próxima : " PROIBIDO RETORNAR ".
                          Ôpa! Meus sentidos começaram a ficar em alerta.
                          E eu, seguindo a procissão, fiquei aguardando qual seria a próxima placa.
                          Mas, ao me aproximar do " CAMIHO FINAL " que faríamos, puxei meu primo, "Val", pelo braço e, parando-o, lhe disse em sussurro : " Val, é melhor aguardarmos por aqui."
                          Ele, sem entender o motivo, me perguntou à baixa voz : " Por que ? ".
                          Apontei-lhe, então, os dizeres no portal em arco, sobre as nossas cabeças.
                         E ele, olhando para onde eu apontava, não conteve uma sonora, e inconveniente, gargalhada, que chamou a atenção de todos, ao ler : " SAÍDA PROIBIDA ".

" O LADRÃO "

                        
                         Uma noite entrou ladrão na casa de "seu" Mário.
                         Era a segunda vez que lhe invadiam a casa, enquanto estava fora.
                         Seu Mário ligou para a polícia. Que veio e fez o de sempre: registrou a ocorrência e o orientou a deixar, sempre que saísse, uma luz acesa, e avisasse aos vizinhos.
                         Quando a "baratinha" da polícia chegou, juntou todo mundo em frente à casa.
                         Nós, os meninos da rua, também fomos.
                         Depois que a polícia foi embora seu Mário, conversando com os vizinhos, disse ter certeza de que nada seria reolvido.
                         Tudo ficaria como da outra vez. Só papel e conversa.
                         Então nós, os meninos da rua, resolvemos ajudar seu Mário a descobrir quem era o ladrão. Pois, sentimos o cheirinho de uma boa, e divertida, aventura.
                         Montamos, então, a nossa estratégia.
                         Nas duas vezes que o ladrão entrou seu Mário, dona Rosa(sua espôsa), e Vladimir, seu cunhado que viera morar uns tempos com eles, haviam saído para o culto em sua igreja, à noite.
                         Nosso plano entraria em execução, então, numa noite em que eles fossem para o culto.
                         Uns longos vinte dias depois, pelo menos longos para nós, todos eles saíram à noite para sua igreja.
                         Nós brincávamos na rua e os vimos sair.
                         Corremos cada um para sua casa, e apanhamos nossas munições.
                         Nos encontramos,momentos depois, num terreno baldio que existia ao fundo da casa de seu Mário.
                         Éramos cinco garotos.
                         Pulamos o muro e entramos no quintal da casa, que era um pomar.
                         Havia muitas árvores que lhe fazia muita sombra.
                         A claridade da rua só chegava à parte da frente da casa.
                         Nos espalhamos por aquele pomar, de modo a quatro de nós formarem um semi-círculo, mais próximos à casa, aberto em direção ao muro dos fundos.
                         Eu fiquei a uns cinco metros antes do semi-circulo. Ou seja, entre o semi-circulo e o muro dos fundos. Só que agachado a um canto.
                         Após meia hora posicionados, o que já estava nos deixando cansados, ansiosos e decepcionados, vimos um vulto saltar o muro.
                         O mesmo muro que antes havíamos pulado.
                         Quando o vulto se aproximou do centro do nosso semi-circulo, foi a marca para agirmos simultaneamente.
                          Cada menino acendeu uma "cabeça de nêgo", um potente rojão de São João, e o arremessou em direção ao ladrão.
                          Pêgo de surpresa o indivíduo tomou um baita susto e voltou, correndo, em direção ao muro que havia acabado de saltar.
                          Só que, entre os meninos e o muro, eu havia esticado um arame farpado, assim que ele passara pelo ponto onde eu me encontrava.
                          O coitado tropeçou, e foi ao chão.
                          Se levantou rápido, e sumiu por cima do muro.
                          A escuridão, que envolvia o pomar, não nos permitiu ter certeza de quem se tratava ser o larápio. Mas, ficamos com uma forte suspeita.
                          Passados alguns minutos, após baixar a adrenalina e a nossa euforia, nos retiramos dali e voltamos a brincar n rua.
                          Ainda nos faltava a segunda parte do plano.
                          Mais tarde "seu" Mário, "dona" Rosa e o Vladimir retornaram do culto.
                          Nossos pais os chamaram e lhes disseram que os meninos haviam jogado rojões em seu quintal.
                          Coisas de moleques, disseram.
                          Enquanto eles conversavam com o casal, Cassimiro, o menorzinho entre nós, e que não estivera no pomar, entregou um bilhete ao Vladimir.
                          Vladimir ficou pálido, e nos olhou.
                          Não disse nada.
                          Sua calça possuía, nos joelhos, marcas de terra.
                          A palma de sua mão, no reflexo de se proteger ao cair, apresentava alguns arranhões.
                          E, a parte mais baixa de sua calça estava com um pequeno rasgo. Provavelmente consequencia do arame farpado.
                          Passou por nós, calado, e entrou em casa.
                          Alguns dias depois o vimos se despedir de "dona" Rosa, dar um abraço em "seu" Mário... e partir.
                          Nunca mais ouvimos, ou vimos o Vladimir.
                          Nunca mais a casa de "seu" Mário, e "dona" Rosa, voltou a ser invadida.


                          PS: No bilhete a ele entregue só uma palavra : " ladrão."               

" UM SEGREDO DE CRIAÇÃO "

                         Às vezes uma palavra, uma frase ou mesmo uma conversa esquecida no tempo...;
                         Perdão, o certo aqui não seria usar a palavra "esquecida".
                         Pois, o que está esquecido jamais será, ou poderá ser, lembrado.
                         Usarei então a palavra "perdida". Já que tudo que foi, ou está perdido, nos deixa uma pequena esperança de, um dia, ser encontrado.
                         Vou então reiniciar o texto :
                         Às vezes uma palavra, uma frase ou mesmo uma conversa perdida no tempo, me retorna à lembrança em fragmentos.
                         Recolho estes fragmentos e os acondiciono em uma das várias caixinhas de minha memória, rotulando-as para não "esquecê-la".(Agora sim a palavra usada no lugar certo).
                         De vez em quando, vou à este compartimento e passo o dedo sobre os rótulos de todas as caixinhas ali armazenadas e... ZAP.
                         Uma delas me salta à mão. Como que a pedir para ser usada.
                         Transformada em um conto, onde ganhe vida. Sentido.
                         Eis aí um dos segredos de criação deste contista.

" O MENDIGO "

                         Não sei se grande parte dos mendigos mentem..., ou se fantasiam suas vidas anteriores à miséria.
                         Por curiosidade, sempre gostei de lhes dar trela para saber um pouco além de suas aparências.
                         Mas houve um, certa vez, que me surpreendeu com sua abordagem inusitada.
                         Se mentia, ou se fantasiava... :

                         Ele se aproximou de mim na rua enquanto eu olhava uma vitrine de loja, no centro.
                         Por sua aparência, maltrapilha, imaginei que viria com a velha e conhecida frase : " O  senhor pode me arranjar um trocado, pr'eu comprar comida."
                         Ao que eu, já desconfiado de que o "trocado" lhe serviria a um cigarro, ou uma boa dose de cachaça "incha-pé", lhe responderia, catedraticamente : " Desculpe! Estou sem trocado nenhum, no momento."
                         Ele, então, me "abençoaria", e iria embora resmungando coisas impróprias de aqui serem ditas.
                         E eu seguiria o meu caminho como se nada houvesse acontecido.
                         Mas, não foi o que aconteceu.
                         Ao invés disso ele simplesmente parou ao meu lado e, acompanhando o meu olhar, levou os seus ao objeto, por mim, cobiçado.
                    
                         E disse : " É uma bela jaqueta."
                         Concordei dizendo : " É sim."
                         Ele então prosseguiu, como em um monólogo : " Já tive uma dessas. Comprei aqui mesmo, nesta loja.
                         O preço é um pouco salgado, mas é muito boa.
                         As costuras são duplas. Reforçadas."
                        
                         Não foram só suas palavras que me surpreenderam. Mas também, a fluência com que elas lhe saiam da boca.
                         Iniciou-se, assim, uma conversa, entre nós dois.
                         Ele me disse que havia sido dono de um comércio, como aquele, tempos atrás. Herança de seu falecido pai.
                         Era solteiro. Filho único.
                         Sempre vivera das mesadas do pai.
                         Quando se viu "dono" de todo o comércio, viu também multiplicar, em seu bolso, o valor monetário à sua disposição.
                         Na época não lhe faltaram os "amigos", e as "namoradas" ocasionais.
                         A vida virou festa. E, quando deu por si, não tinha mais a loja. Não tinha mais os amigos.
Nem mesmo as namoradas.Assim como elas, tudo fôra de ocasiâo.
                         Um dia, antes que não lhe retasse mais nada, sonhou com o pai. E, em sonho, este lhe disse : " Filho, peque o que lhe resta... e peça ao seu tio, Vítor, que o aplique para voce. Depois, com o mínimo necessário, saia a andar pelas cidades, como um mendigo, e aprenda".
                         E, virando-se para mim, completou :
                
                      " Aqueles que muito teem..., muito mais querem ter.
                        Querem ter, muito mais..., os que pouco teem.
                        Mas, só aqueles não teem nada, os verdadeiramente miseráveis, sabem dar valor ao pouco que lhes coube."
                       
                        Virou-se... e se foi.
                        Nunca mais o vi... mas jamais esqueci a nossa curta conversa.                   

" PERUCAS DE CIGANOS "

                         Cada povo tem seus costumes e tradições. Coisas que lhes são peculiares.
                         E o povo cigano é um desses que posui uma rica diversidade em sua cultura.
                         Acho admirável o seu tino para o comércio.
                         A alegria que transmitem pelas cores de suas roupas e suas festas.
                         Mas tive conhecimento, através de um "contato físico", com um de seus costumes nada agradável.
                         Trabalho em uma ferrovia e certo dia fui levado à uma estação, de carro, onde o trem se encontrava estacionado a uns trezentos metros de sua plataforma.
                         Como a estrada para carros terminava na estação, eu teria que terminar o resto do trajeto a pé.
                         A noite estava escura, e a estrada não possuia iluminação artificial.
                         Pensei então em seguir a trilha que corria paralela aos trihos da ferrovia.
                         Porém o segurança da estação me alertou : "Vá por entre os trihos. Tenha cuidado pois, na trilha, há muita peruca de cigano."
                         Não consegui, na hora, atinar para o que significava aquela curiosa expressão.
                         Sorri, em agradecimento, mas  segui seu conselho.Fui por entre os trilhos.
                         Depois de percorrer cerca de cem metros entre os trilhos avistei, à minha esquerda, um acampamento cigano.
                         O alerta do segurança, com a estranha expressão, me retornou à mente : "Cuidado com as perucas de ciganos."
                         Neste momento, devido à brita irregular da linha me obrigar a pisar com cuidado para não sofrer uma torção no pé,o que já estava começando a me incomodar, resolvi ignorar o aviso recebido e terminar o percurso pela trilha mesmo.
                         Ao dar o segundo passo, na trilha, senti minha botina afundar em algo de categoria pastosa. Ao mesmo tempo em que o ar, à minha volta, se enchia de um odor conhecido de qualquer ser humano.
                         Parei. Só então apanhei minha lanterna na bolsa e tive a desagradável visão daquilo que , imediatamente, identifiquei como "as perucas de ciganos".
                         Como o vento soprava da minha esquerda para a direita, e as "perucas" se encontravam à minha direita, não me foi possível perceber-lhes o cheiro antes.
                         Deduzi que os ciganos haviam comido algo que lhes desencadeara uma disinteria coletiva.
                         Afinal haviam, pelo menos, umas vinte "patacas de perucas". E, devido à urgência que a situação exigiu, eles mal tiveram tempo de atravessarem a linha para fazerem suas necessidades fisiológicas, realizando seus alívios alí mesmo, em um longo trecho da trilha.
                         Porém esta minha dedução inicial caiu por terra. Pois a verdade que fiquei sabendo mais tarde, é que os ciganos costumam fazer suas necessidades próximas ao seu acampamento, para não perderem de vista suas tendas. E assim, vigiá-las enquanto se aliviam.
                        
                  
      
              

" CRUSH, O VALENTE "

                         Um dia aparecu em nossa rua um cachorro que ninguém sabia de onde viera, muito menos quem era seu dono.
                         Então nós, a molecada da rua, resolvemos "adotá-lo".
                         Acredito que ele pertencia à conhecida família dos "vira-latas".
                         Com o tempo, onde íamos, ele nos acompanhava.
                         Estava sempre em nossas brincadeiras.
                         No pique-esconde... para nos delatar.
                         No pique-pega... para nos atravessar a frente, fazendo com que caíssemos e virássemos presa fácil para o "dono" do pique.
                         Ou seja, atrapalhava qualquer brincadeira nossa.
                         Se tornou um grande amigo de todos.
                         Demos-lhe o nome de "crush".
                         Em alusão a um refrigerante laranja da época, que era muito conhecido. E como possuía a pelagem amarela, achamos que o nome lhe caía bem.
                         Porém um dia Dona Míriam, mãe de um lindo bebê de dez meses, ahou que o crush era um perigo para todos nós.
                         Dizia que por ele ser um cachorro de rua, não era confiável.
                         Poderia não estar vacinado e, ao morder uma criança, transmitir-lhe a raiva.
                         Falava mil coisas que poderiam acontecer.
                         O coitado do crush sem entender nada do que ela falava, e o porque de tanto lhe apontarem na direção, de vez em quando levantava as orelhas do chão, onde estava deitado, e fazia um leve movimento com os olhos, em direção os que conversavam à seu respeito.
                         Assim como a tal da água mole na pedra dura, tanto ela falou que nossos pais acharam, por bem, prevenir. Proibiram-nos de brincar com o crush.
                         Crush, como a entender a situação após tantas vezes ser enxotado por nós, passou a ficar somente na calçada, deitado, nos observando brincar.
                         Aconteceu então que num desses dias em que ele estava deitado na calçada, no outro extremo, da mesma calçada, Dona Míriam conversava com uma vizinha, enquanto seu filhinho brincava no chão.
                         Dona Míriam não percebeu quando seu bebê, engatinhando, foi para o meio da rua.
                         Dona Míriam não percebeu... mas parece que crush sim.
                         Um carro entrou pela rua e seguia em direção ao bebe.
                         Ninguém sabe se por coincidência, ou por percepção, crush latiu e correu para o meio da rua. Entre o carro e o bebê. 
                         Crush foi atropelado.
                         O som da freada do carro chamou a atenção dos que estavam na rua.
                         Dona Míriam, quando ouviu o latido, pensou que o cachorro atacava seu bebê.
                         Virou a cabeça a tempo de ver o pobre câo sendo colhido pelo carro, e o carro parar antes de atropelar seu bebê.
                         Correu, apavorada, para o seu bebê... e o abraçou.
                         Depois, compreendendo o que acontecera, olhou para o cão, que agonizava, passou-lhe a mão na cabeça, como a agradecer-lhe o ato heróico, e a se desculpar por o haver espezinhado.
                         Uma lágrima, talvez de remorço e/ou de arrependimento, lhe deslizou pela face.
                         Alguns dias depois um senhor apareceu em nossa rua.
                         Procurava por um cão de pelagem amarela, que havia se perdido de seu circo. Companheiro de longa data.
                         O cão, disse ele, atendia pelo nome de "Valente".
          
                        
                

" EU, COSME E DAMIÃO "

              
               Certa vez fui convidado para trabalhar numa bilheteria de clube, no periodo de carnaval.
               A catraca da portaria de entrada ficava bem próxima de onde eu estava. E, devido a esta proximidade pude ver, logo na primeira noite, que os dois rapazes incubidos da entrada dos foliões eram muito rigorosos na admissão ,ao clube, dos mesmos.
               Se alguém estava descalço... não entrava.
               Se estavam com bebida na mão, mesmo que fosse em copo plástico, ou a terminavam antes de entrarem, ou a jogavam fora. Senão... não entravam.
               Sem camisa... nem pensar.
               Lá dentro, após todo este rigor que " Cosme e Damião ", vou assim aqui  a eles me referir, impunham na portaria, ninguém se importava se ficavam descalços, bêbados ou semi-nús.
               O interesse do clube era faturar. Pois, lá dentro se vendia todo o tipo de bebida.
               Afinal... era carnaval.
               Na segunda noite saí de casa preparado para driblar aquela incômoda situação da portaria, que às vezes me obrigava a devolver o dinheiro do bilhete de algum folião desgostoso.
               Levei, dentro de uma sacola, um saco de estopaque minha mãe havia comprado para usar como pano de chão, mas ainda limpo e virgem.
               O saco era aberto dos lados, com um buraco em seu alto, feito por mim à tesoura para que passasse uma cabeça, e um velho chinelo, número quarenta e dois.
              O primeiro folião que observei chegando descalço lhe passei, pela grade da bilheteria, o par de chinelos. Não sem antes lhe explicar o motivo.
              Ele apanhou o chinelo, calçou-o, e entrou.
              Depois de estar lá dentro passou ao lado da bilheteria e, sem parar, deixou-os à minha porta.
              Um outro rapaz, que chegava com a namorada que usava um minúsculo top, estava sem camisa.
              Passei-lhe o saco de estopa, para que o vestisse.
              Assim como os abadás que os jogadores usam, em seus treinos, para diferenciar o "time A" do "time B".
              Assim como o rapaz do chinelo, ele também o devolveu assim que se encontrou pelo lado de dentro, e passou próximo à porta interna da bilheteria.
              Os copos de bebidas eu os apanhava pela grade da bilheteria, e os devolvia pela porta interna.
              A cada serviço prestado eu cobrava uma pequena taxa.
              Todos aos que ajudei naquela noite me "recompensaram" agradecidos.
              De manhã, ao término do baile, chamei Cosme e Damião e lhes contei, em particular,  minhas pequenas armações.
              Dei-lhes trinta por cento de todo o meu "arrecadamento extra", mas não sem antes firmar-mos um combinado : "Que eles endurecessem, ainda mais o acesso, dos foliões ao baile. Deixando, para mim, a "solução" em "ajudá-los".
              Ao final das quatro noites conseguimos um exelente "rendimento extra".

" PROGRAMA DE ÍNDIO "

                         Cheguei do serviço aquele dia e meu pai me deu o recado : "Seu irmão ligou e disse que amanhã vem, com um amigo, para voces levarem a carcaça do bugre."
                         Explico :
                         Meu irmão havia comprado um fusca velho, e uma carcaça nova de fibra de bugre. E ambos estavam guardados na garagem lá de casa.
                         Eu o ajudaria a montar um bugre, sobrepondo a carcaça sobre o chassis do fusca.
                         Na manhã seguinte chegou meu irmão e um amigo, o "Maranhão", em um chevete novinho.
                         Bom, a idéia era colocar a cacrcaça sobre o teto do fusca e amarrá-la para o transporte.
                         Como o teto do fusca é abauloado, e a base da carcaça plana, a tarefa começou a ficar um tanto quanto complicada. Visto que o fusca não possuía bagageiro.
                         Maranhão vendo, e participando daquela dificuldade toda, sugeriu que a amarrássemos sobre o teto de seu chevete, que era quase plano.
                         Eu e meu irmão achamos um absurdo, e recusamos. Pois, o carro dele também não possuia bagageiro, portanto ficaria todo arranhado.
                         Encontraríamos uma solução pra o impasse.
                         E, a solução foi eu entrar no fusca, fechar as portas e abrir as janelas.
                         Eles amarraram a carcaça sobre o fusca passando as cordas por seu interior. Ficando eu assim, confinado dentro dele até que chegássemos ao nosso destino. A casa de meu irmão, à setenta e dois quilômetros de distãncia.
                         Para observar durante o trajeto se a carcaça não se deslocava, devido ao vento provocado pela velocidade do carro, num movimento que a fizesse se soltar, o que seria um sério desastre no asfalto, virei os retrovisores para cima.
                         Meu irmão e Maranhão me seguiam à meia-distância, como fazem os "carros batedores" que fiscalizam alguns tipos transportes.
                         Seguimos bem por cinquenta quilômetros de asfalto. Sem contratempos, nem federais para nos questionar sobre o transporte inadequado.
                         Dali em diante seriam apenas mais vinte e dois quilômetros, em estrada de terra, até nosso destino.
                         Foi nessa estrada de terra que a coisa toda começou a mudar.
                         Havim duas enormes depressões na estrada, as quais chamávamos de "tobogã".
                         Só pelo vibrar do fusca na estrada, a carcaça se agitou, um pouco, sobre o teto.
                         Olhei pelos retrovisores e a percebi, ainda, em boa posição.
                         À primeira depressão passsamos, razoavelmente, bem.
                         Porém, na segunda, a carcaça se desprendeu das amarras, e alçou um vôo para tráz.
                         Por sorte nossa ela "pousou", intacta ao solo.
                         Meu irmão e Maranhão levaram um susto daqueles. Pois, só puderam parar e torcer para que, após o vôo, ela não os atingisse.
                         Avaliamos a situação e vimos que demoraríamos mais que antes para reposicioná-la sobre o fusca.
                         Novamente Maranhão propôs o teto de seu carro.Mas, para nós era algo totalmaente fora de questão.
                         Foi quando, então, meu irmão falou : "O ideal seria uma caminhonete."
                         Mal acabara de falar surge, no topo dessa depressão, pois estávamos em sua parte mais baixa, uma toyotinha.
                         Sorrimos com a providência enviada.
                         Meu irmão fez sinal e o motorista parou.
                         Então, ele lhe perguntou se havia como colocarmos a carcaça do bugre sobre sua carroceria para terminarmos de chegar.
                         O motorista concordou. Mas, disse que o problema seriam os doze índios que ele transportava em sua carroceria até a aldeia, pois nos encontrávamos dentro de sua reserva.
                         Acondicionamos , uso esta palavra porque acomodar seria ajeitar com conforto, o que não era o caso,  um total de quinze pessoas entre fusca e o chevete.
                         Olha, se é verdade que foram os índios que nos ensinaram a tomar banho, aqueles índios, com certeza, não seguiam as tradições, e ensinamentos, de seus antepassados. Pois, demoramos dias para dissipar, dos dois veículos toda a inhaca que ficou após aquele transporte.
                      

" MOENES, O MACANUDO "

                         Tenente Merlo "tava" com as macacas naquele dia.
                         Colocou o pelotão em forma às cinco da manhã, e gritava palavras de ordens à todo momento.
                         Malhou a turma, em exercícios físicos, até as seis e meia. Aí nos deixou fazer o desjejum.
                         Porém foram somente dez minutos para fazê-lo. Pois eis que ele entra alojamento adentro, mandando que fizéssemos nova formação no pátio.
                         Já em formação fomos, em marcha acelerada, ao fundo do quartel.
                         Ao seguirmos naquela direção já sabíamos que a manhã não seria nada boa para nós.
                         Nos fundos do quartel havia uma pista de resistência. E era exatamente para lá que nos dirigíamos.
                         Ao chegarmos lá vimos os outros graduados esperando por nós : cabos, sargentos... e o capitão da companhia.
                         Mais à frente, ao final da pista, uma ambulância estava posicionada, à espera dos inevitáveis desfalecidos soldados que, com certeza, apareceriam.
                         A pista se iniciava com umas toras suspensas, apoiadas em apoios a meio metro do chão, em forma de zig-zag.
                         Na sequência vinha um muro de três metros para ser transporto.
                         Do outro lado uma rede de arame-farpado, a meio metro de altura, com um lamaçal por baixo, onde tinhamos que nos arrastar para ultrpassá-lo.
                         Após esta lama, para que ficássemos "limpos", passávamos por cem metros de mangue, com profundidade de metro e meio. Fora a lama submersa que teimava em prender nossos coturnos ao fundo.
                          Nesta etapa tínhamos que manter nossos fuzis acima da cabeça, com nossos braços esticados.
                          Em seguida deslizávamos por cem metros de corda, na horizontal.
                          Daí, era só pular dentro em um buraco de tres metros de profundidade, correr por seu fosso de cinco metros, e subir-lhe a parede oposta, e lisa.
                          Para finalizar subíamos uma escada de corda de cinco metros de altura e, quando chegávamos em seu tôpo. Dávamos uma "bandeira", que consiste em voce estar com o corpo de um lado da escada, passar seus braços para o outro lado, e arremessar seu corpo, em um giro de trezentos e sessenta graus e desce,r em queda livre, caindo agaixado sobre um monte de areia, cinco metros abaixo.
                           Apesar de alguns terem cansado bem antes desta fase, houve somente um em quem o tenente focou toda a sua atenção, não o deixando desistir.
                           Fez com que o infeliz repetisse e repetisse, várias etapas, até vencê-las.
                           Ele lhe gritava bem próximo : "Vamos , macanudo. Vamos. Voce consegue."
                           O pobre soldado Moenes, o "macanudo" a quem o tenente se referia, e que quer dizer "esperto", quando chegou ao alto da escada de corda... empacou que nem mula teimosa.
                           Temeu em se arremessar de altura tão assustadora.
                           Por mais que o tenente gritasse, Moenes não cumpria sua ordem.
                           Então o tenente ameaçou subir... e jogá-lo.
                           Temendo a ameaça o pobre coitado fez a "bandeira" e despencou, desengonçadamente, se estatelando na areia abaixo.
                           O tenente, temendo ter exagerado no comando, correu até o soldado que, ao vê-lo correndo em sua direção ficou, imediatamente, de pé, em posiçao de sentido, esperando-o.
                           Ao ver a presteza com que o soldado se levantara o tenente ficou mais aliviado, e gritou-lhe : "Soldado. Eu não mandei voce cair. Eu mandei voce saltar."
                           Ao que o soldado com sua voz esganiçada respondeu, também aos gritos : " Eu não caí, senhor. Eu pulei, senhor."
                           E o tenente... : "Caiu, que eu ví, soldado."
                           E Moenes insistiu : " Eu não caí, senhor. Eu pulei."
                           O tenente então lhe disse : " Se voce pulou, soldado, por que o seu nariz está torto ? "
                           Moenes, ao cair na areia havia fraturado o nariz, atingido pelo próprio joelho.
                           Mas, ele não demonstrava sentir dor, e se mantinha na posição de sentido. E então informou ao tenente : "Eu não entortei o nariz, tenente."
                           O tenente, talvez em reconhecimento à força de atitude do soldado, lhe bateu amigavelmente no ombro, e lhe disse : " Soldado Moenes, voce é mesmo um sujeito macanudo. Vá para a ambulância, para que te tratem. "
                            O soldado Moenes só lhe respondeu : " Obrigado, senhor."
                            E saiu em disparada rumo à ambulância.
                            O resto da tropa, que à meia distância assistia àquele interlóquio se divertia, às gargalhadas, à cada frase pronunciada pelos dois.
                 
                  
                         
                            
                          

                        
                        
                   

" O CARRETEL "

                   
                 
                 
                      "  Minha mãe estava sentada em sua máquina de costura, e eu brincava ao seus pés.
                         Derrepente um carretel cai, e tem sua linha desenrolada pelo chão.
                         Apanho o carretel, e o entrego de volta à minha mãe. "

                        
                         Hoje, esta simples cena de minha infância, me saltou à lembrança.
                         Mas, nada é por acaso.
                         Ela veio para me dizer que somos como aquele carretel, nossa alma.
                         A linha, nossa vida já, e ainda, vivida, a se desenrolar por essa estrada.
                         O destino, a mão da criança que era eu, está atento. À espreita.
                         Zzzap.
                         Pronto para, a qualquer momento, nos interromper... e nos devolver a quem nos deu a vida.

" AS LAVADEIRAS DE BEIRA DE RIO "

                         Ao final de todos os dias creio que todo ser humano deveria repensar as coisas por ele vividas.
                        Tenho certeza que ele veria que, a cada dia nos cabe uma lição.
                        São as coisas simples, que mais nos ensinam.
                        Vou lhes dar um exemplo :

                        Quando criança, minha mãe saía com uma bacia de roupa à cabeça, e nós a acompanhavamos até a beira do rio. Onde, ela e outras mulheres, enquanto as lavavam, conversavam.
                        Eu gostava de olhar, e admirar aquela cena.
                        Elas molhavam as peças, ensaboavam-nas, as batiam nas pedras, para lhes retirar a sujeira, molhavam novamente, botava-lhes "anil", para ficarem cheirosas, e as devolviam, agora limpas, às bacias.
                        À noite tínhamos lençóis, e cobertores limpos e perfumados. Nos quais se era muito gostoso deitar a cabeça, e dormir.
                        Assim aprendi com elas, as lavadeira de beira de rio que, também nós, somos como aquelas roupas sujas que elas lavavam.
                        Precisamos, de vez em quando, que alquém nos ponha na "bacia do juízo",  nos levem ao "rio da verdade", e lá nos submerjam.
                        Mas, se tudo isso não nos trouxer à limpeza da realidade, que sejamos sovados na "pedra do entendimento", torcidos pelas "mãos da razão"... até merecermos o suave perfume do anil.

" JOZINO, O MILIONÁRIO "

                         Sempre que seu Jozino passava em nossa rua, com sua caixa de picolé à tira-colo, fazia a nossa alegria.
                         A sua pequena caixa de isopôr era um verdadeiro baú de sabores e festa.
                         "Aê o picolé. Tem de manga, goiaba, côco e milho verde."
                         Era assim que ele nos encantava, ao passar, como se fosse o "flautista mágico" do conto infantil.
                         Quando o ouvíamos cantar os sabôres na entrada da rua, corríamos a pedir às nossas mães para comprar.
                         Ele sabia que em nossa rua sua freguesia era certa.
                         Mas aquele dia "seu" Jozino acordou, e sentiu que havia algo diferente naquela manhã.
                         Seu sexto sentido lhe dizia que algo muito bom estava para acontecer.
                         Apesar de suas cismas, manteve seus afazeres normais.
                         Tomou seu café com um simples pão com manteiga, pois suas posses não lhe permitiam mais, e saiu com sua velha caixa de isopor para o batente.
                         Ao passar em frente à uma lotérica se lembrou de um jogo feito, e ainda não conferido.
                         Entrou.
                         Apanhou o resultado. Enfiou-o no bolso. E, saiu.
                         Ao se aproximar de nossa rua, parou.
                         Resolveu conferir o bilhete com os números anotados.
                         Um tremor tomou-lhe conta de todo o corpo.
                         Os números, todos eles, conferiam com os marcados em seu bilhete.
                         Uma euforia lhe invadiu o espírito.
                         Percorreu a rua feliz.
                         Pulava. Cantava. Gritava.
                         Distribuiu, às crianças da rua, todos os picolés de sua caixa.
                         Ao esvaziá-la, quebrou-a a ponta-pés.
                         Pisoteou,então, seus pedaços.
                         Disse que seu pão com manteiga seria , agora, substituído por um tal de breckfast, que os "gringus" comiam lá nos estranjas.
                         Recebeu os parabéns de todos da rua.
                         Foi embora feliz, gritando:"Tô rico.Tô rico."
                         No dia seguinte, triste e cabisbaixo, retornou à nossa rua.
                         Foi, de casa em casa, solicitando aos seus freguêses/amigos, uma colaboração para que pudesse comprar uma nova caixa de isopôr, para reiniciar sua labuta.
                         Houvera tantos ganhadores, naquele sorteio, que o prêmio havia sido ínfimo.
                         Mal daria para ele pagar a carne do açougue, que ele pegara para o churrasco que dera aos amigos, em comemoração.
                         Muito menos sobraria algum para uma nova caixa.
                       

" A SOLIDÃO DE FERNÃO "

                         Fernão não queria ser diferente.
                         Assim como muitas pessoas, Fernãosó queria que as coisas não fossem iguais.
                         Ele não se conformava com o existir pré- determinado, em que sua gente vivia.
                         Queria o direito de pensar por si.
                         Queria viver, e/ou morrer, por suas próprias escolhas, e decisões.
                         Mas, os seus não o compreenderam.
                         Não o apoiaram.
                         E Fernão foi banido.
                         Ficou só.
                         Ficou triste.
                         Pelas leis do bando... não mais pertencia a ele.
                         E Fernão se afastou.
                         Foi para outras praias... que não conhecia.
                         Fernão, no seu exilio, cresceu.
                         Conheceu novas gaivotas.
                         Aprendeu novos voos.
                         Se desenvolveu.
                         Finalmente Fernão aprendeu que, o preço de ser livre passa pela dor da perda.
                         Da separação.
                         De ser só.
                         Passa, principalmente, pela superação de contar somente consigo...
                         E mais ninguém.



                                                                          (Sobre Fernão Gaivota-Richard Bach)
                        

                       

" VÓ ZIZA "

                         Havia nas pequenas cidades,e alguns vilarejos ainda hoje manteem este costume de, à tardinha, colocarem as cadeiras nas calçadas, em frente às casas, e se sentarem com os vizinhos para momentos de conversas.
                         Falava-se das coisas do dia-a dia. Da vida.
                         Dona Ziza, ou como a chamávamos: Vó Ziza, era um desses perssonagens que nos marcam a infância, por seu carisma...e sua doçura.
                         Ela gostava de se sentar em sua cadeira e, com um bando de crianças ao seu redor, nos fazer passear pelos pomares e fazendas de sua infância.
                         Bebíamos, em sonhos, da mesma água da nascente que ela bebera.
                         Banhávamos, em fantasia, no mesmo ribeirão em que ela se banhara.
                         Corríamos, em pensamentos, pelos mesmos matos e estradas poeirentas, em que ela correra.
                         Revivíamos, em devaneios, as suas aventuras e traquinagens de criança livre e feliz.
                         Vó Ziza era uma exímia contadora de histórias e causos.
                         Ela conseguia despertar , em nós, a vontade latente de querer-lhe ouvir sempre mais, e mais, das suas hitórias.
                         Mas, os sonhos são como fumaça.
                         Se esvaem.
                         A vida não nos pede licença. E, deixa que a faca do destino nos corte a carne, e nos sangre a alma.
                         O dia em que sua cadeira ficou vazia, na frente da casa, à tardinha, sentamo-nos ao seu redor... e recontamo-nos algumas de suas histórias.
                         Ríamos... e chorávamos, com as lembranças.
                         Vó Ziza, de onde quer que tenha nos visto, deve ter ficado feliz com a nossa homenagem.
                         Por todos nós... obrigado.