Eu devia ter uns seis ou sete anos, e morava numa pequena cidade do interior de Minas.
Em nossa rua havia, mais ou menos, umas onze crianças numa mesma faixa de idade.Fazíamos muito barulho naquela rua descalça, empoeirada e comprida.
Nesta nossa rua havia uma pequena mercearia, que à época todos chamavam de "venda".
O dono desta venda era o "seu" Zé.
"Seu" Zé tinha um filho, o Toninho, que beirava os quatro anos. E que,volta e meia,o incluíamos em nossas brincadeiras.
Toninho era muito querido por todos nós.
"Seu" Zé, todas as quintas-feiras, reunia a molecada em frente à sua venda, e distribuía ora balas, ora chicletes, para todos.
Isso, lógico, nos fazia mais ainda gostar de ter o Toninho brincando conosco.
Pelo lado de "seu" Zé, as guloseimas eram somente pelo prazer de ver o sorriso de alegria, nos rostos das crianças.
Certo dia "seu" Zé tirou férias e foi passear com a família.
Passado alguns dias, nossos pais nos falaram que "seu" Zé, e "dona" Marta,sua espôsa, estavam voltando do passeio. Mas, que evitássemos fazer algazarra em frente à casa/comércio deles. Pois, durante a viagem, o Toninho havia se afogado na praia
"Seu" Zé, e "dona" Marta voltavam sós... e muito tristes.
Durante toda a semana seguinte ,à chegada deles, fizemos silêncio não somente em frente à casa mas, em toda a rua.
Íamos à outra rua, a rua do Marquinhos, para brincarmos.
Na quinta-feira, como era já nosso costume, fomos para a frente de sua venda e o chamamos.
Ele apareceu. Estava com um ar triste, e abatido.
"Dona" Marta vinha logo atrás.
Ainda assim, ele trazia às mãos, um pacote de balas.
Derrepente parou ao reparar que,em cada uma de nossas pequenas mãos, estendidas à ele, haviam duas balas para presenteá-lo..., e vermos, novamente em seu rosto, o sorriso de feliciade ao qual estávamos acostumados.
Às suas costas ,vimos surgirem lágrimas aos olhos de "dona" Marta.
"Seu" Zé nos olhou, e suspirou fundo.
Um suspiro que veio do fundo da alma.
Uma lágrima rolou pelo seu rosto.
Num agradeimento mudo, e emocinado, nos abraçou.
Também nós nada dissemos. O abraçamos também.
Sabíamos, e compartilhávamos de sua dor pela perda de nosso pequeno amigo.
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