Há algum tempo atrás, eu estava numa pequena cidade do interior baiano, e morava numa pensão onde dividia o quarto, que era composto de três beliches, com outros “aventureiros”, que ali estavam com o mesmo objetivo meu: arrumar emprego em uma das várias firmas que ali se instalavam.
Como toda cidadezinha do interior, esta também tinha uma pracinha central, onde haviam vários bancos, com árvores lhes emprestando suas sombras.
Havia também, espalhados por alguns pontos da praça, alto-falantes, que divulgavam as notícias locais e musicas, que sempre um alguém oferecia para outro alguém.
Escolhi um desses bancos, onde um senhor já se encontrava, solitariamente, sentado.
Era final de tarde. Cumprimentei-o. Sentei-me e abri o livro que trazia comigo.
Antes de começar a lê-lo, percebi que este senhor parecia um pouco incomodado com minha presença ali.
Para “quebrar” aquela situação, perguntei-lhe se gostava e ler; para minha surpresa, ele me disse que havia sido professor, mas, com a doença que lhe tomara o corpo – a “lepra”; bastante perceptível, por sinal – teve que abandonar a profissão, perdeu os amigos e a família. Fora abandonado e esquecido por todos.
Conversamos por um bom tempo, e ele me confessou estar surpreso por eu ter me sentado ao seu lado, já que a maioria das pessoas procurava evitá-lo.
Respondi-lhe que havia sim notado as marcas em seu corpo, mas tinha ciência de que sua doença não era contagiosa, e, colocando minha mão em seu ombro, disse que pior que as marcas no corpo, são as marcas que um ser humano infringe estupidamente ao outro, resultante de sua ignorância.
Neste momento, seus olhos encheram-se de lágrimas. Vi em seu rosto uma expressão de profundo agradecimento, que jamais tinha visto, ou voltei a ver em alguém, somente por ter-lhe compartilhado um pouco do meu tempo.
Conversamos algumas vezes, e pude perceber que, com o decorrer dos dias, dois de meus companheiros de quarto pediram para levarem seus beliches para outro quarto, pois temiam que eu estivesse contaminado.
Ah! Pobres seres humanos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirBelo texto...A proposta foi muito bem conduzia.
ResponderExcluirÉ simples,tocante e reflexivo....