Há alguns pequenos animais que, para se preservarem de serem devorados por predadores, inflam partes de seu corpo para parecerem maiores, assustadores; e assim escapam da fatalidade iminente.
Vivi situação semelhante quando servia o exército.
Havia lá um rapaz que, quando se apresentou para a seleção, arrumou mil e uma desculpas para não servir. Porém, como ele já estava se apresentando com três anos de atraso, foi recrutado.
Aquele recrutamento o deixara insuportavelmente anti-social.
Se estávamos em formação no pátio, ele caía na porrada com quem estivesse mais próximo. Motivo? Queria ser expulso.
Brigava no banheiro, no campo, no alojamento, no refeitório… e foi justamente neste último – no refeitório – que percebi que chegara a minha vez. Minha tão temida vez.
Visualize esta imagem: o cara era maior que eu; um pouco mais forte; mais velho três anos – o que lhe dava mais malícia e experiência em brigas – e, para complicar, não estava nem aí se iria bater ou apanhar. Ele só queria ser expulso.
Pois bem. O filho da mãe veio sentar-se exatamente à minha frente para almoçar. Sem talheres.
De repente, ele esticou o braço para se apropriar dos meus talheres.
Pensei então na estratégia dos pequenos animais, citados no início do texto, e arrisquei. Embora soubesse que, se não funcionasse, eu não seria devorado, mas com certeza tomaria um cacete daqueles.
Numa fração de segundo fiquei de pé, apanhei a faca, aproximei do rosto dele e, encarando-o de cima pra baixo – pois ele não teve tempo de se levantar – pegando-o de surpresa, lhe disse: “Nunca mais tente pegar algo meu sem me pedir”.
Depois de alguns longos segundos aguardando a primeira porrada que viria – mas não veio – sentei-me e iniciei o meu almoço, sempre com atenção nele.
Durante todo o ano não houve outro atrito entre nós, nem olhares tortos.
Aprendi, naquele dia, que não importa o quão valentes os outros – ou uma situação adversa - possam parecer; é só “colocar-se de pé” e encarar com coragem, determinação, atitude… e uma pontinha de receio, pois o receio – ou medo, se assim preferir chamá-lo – o fará ser cauteloso e atento às pequenas surpresas.
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