"CONSEQUÊNCIAS DE NOSSAS INCONSEQUÊNCIAS"

                           A mente, muitas vezes para nos preservar de fatos, ou pessoas, que não nos são agradáveis, os arquiva em um porão de nosso inconsciente.
                           Por lá eles ficam "hibernando", até que um dia... despertam.      
                           No último ano do primeiro grau, havia um garoto em nossa escola, Eduardo, que foi o cara mais cruel que já conheci.
                           A maior de todas as suas crueldades que presenciei, foi quando ele pegou um pardal, arrancou todas as suas penas e o soltou, à hora do recreio, quinze horas, na quadra descoberta da escola.
                           Ou seja, uma temperatura insuportável, pois era pleno verão, só para assistir ao desespero do pobre animal.
                            Se até o término do recreio o calor não o matasse, ao soar a campainha para retornarmos à sala, ele apanhava o coitado com uma mão e, com uma gilete na outra, abria-lhe o peito, previamente raspado.
                            Devolvia-o, agora sangrando,à quadra quente.
                            Assim, retornava à sala como se nada de anormal, e brutal, tivesse  feito. Deixando, para trás, o pássaro agonizante.
                            Pois bem, este indivíduo eu deletei de meus penssamentos. Porém, anos mais tarde vou à uma festa na casa de amigos, e me surpreendo ao vê-lo como um dos convidados que mais atenção chamava.
                            Eis que agora o encontro preso à uma cadeira de rodas.
                            Não me aproximei. Nem mesmo o cumprimentei . Ignorei-o.
                            Mas, à certa altura da festa, alguém lhe disse que eu o conhecia dos tempos de escola.E ele então pediu para que o levassem até a mim.
                            Começamos a conversar e eu lhe disse que não havíamos estudado na mesma sala. Ao que ele disse não se lembrar de mim.
                            Falei-lhe, então, o porque eu, e outros mais da escola, sabíamos dele, sem que ele, necessáriamente, precisasse saber de nós.
                            Pareceu-me que o peso de todas as crueldades, daqueles anos, lhe caíram sobre os ombros. E, com a voz embargada e um olhar triste, me confidenciou que, talvez por ele ter carregado aquela  índole para sua vida proficional, estivesse, agora, naquela atual situação.
                            Ao sair do ginásio ele entrara para a polícia.
                            Um dia de folga, após deixar a namorada em casa, ele retornava para a sua. Foi quando um carro, em uma rua qualquer, ao passar por ele, esbarrara no seu, parando mais à frente.
                            Sem pensar, desceu de seu carro para tirar satisfação.
                            Três rapazes desceram do outro veículo, já atirando.
                            Não houve discussão. Nenhuma palavra foi dita.
                            Quando caiu ao chão, ensanguentado, eles simplesmente viraram as costas e foram-se embora. Talvez achando que o haviam matado.
                            Nunca soube quem, nem o porquê.
                            Ele que se achava um bom policial, pois "fazia o que tinha que ser feito", tomara cinco estúpidos tiros.
                            Fiquei triste por ele que descobriu, tarde demais, que aquela situação, irreversível, era consequência de suas inconsequências pela vida.

" PARAR PRA QUÊ ? "

                        Minha mãe havia conseguido o primeiro emprego para o meu irmão. No qual ele acabaria ficando por vinte e dois anos.
                        Era em uma fábrica que estava se instalando em nosso Estado.
                        Sua localização era em uma área desabitada, em outro município, à setenta e dois quilômetros de onde morávamos.
                        Por necessidade, do empreedimento, foi construído, no meio do nada, um alojamento para seus primeiros funcionários.
                        Foi lá que meu irmão passou a morar, e ia nos visitar à cada quinze dias.
                        Foi em uma dessas suas vindas, em nossa casa, que se deu o fato que conto.
                        Meu irmão chegou do trabalho, de manhã, no alojamento, e preparou sua bolsa de nylon, para viagem, com suas melhores roupas-de-fim-de-semana.
                        Tudo muito bem acondicionado, prendeu a bolsa ao bagageiro de sua moto, recém adquirida, com os elásticos.
                        Pegou a estrada para viajem, que consistia em ciquenta quilômetros de terra, e mais uns vinte e dois de asfalto.
                        Para "sorte" do meu irmão, chovia bastante e, a estrada estava que era só barro.
                        Percorridos uns vinte quilômetros naquele terreno "maravilhoso", passa por ele um veículo, e o motorista lhe grita algo, apontando para a trazeira de sua moto.
                        Sem pensar em parar, pois já estava totalmente encharcado por aquele "dilúvio", e só pensava em chegar logo ao asfalto, e em casa, vira a cabeça olhando para baixo, em direção à roda trazeira de sua moto, imaginando o que poderia ser, já  que tudo lhe parecia normal.
                        Como não observa nada de anormal; parar pra quê? Prossegue, então, sua viagem.
                        Alguns quilômetros à frente, um segundo veículo, ao passar por ele lhe faz o mesmo sinal que o primeiro, apontando, também, para a trazeira de sua moto. E como o outro, lhe grita algo.
                        Sem conseguir novamente entender, devido à chuva e ao capacete que, além de lhe dificultarem a audição, lhe obstruiam o entendimento e raciocínio lógico, faz um sinal de agradecimento ao motorista.
                         Mas, mais uma vez opta por não parar.
                         Observa, ainda em movimento, a roda traseira de sua moto. Mas, dessa vez faz mais, levanta a bunda do acento e o observa também.
                         Mesmo resultado da primeira vez.
                         Não há nada de anormal com sua moto.
                         Prossegue então seu caminho, pensando: "Mas que p... esses caras tanto apontam? Ah, tá tudo normal. F..., parar pra quê?
                         Agora só lhe faltam uns quatro quilômetros de estrada de chão. Beleza.
                         Porém, um terceiro veículo passa por ele e repete o mesmo gesto, e mesmas incompreessíveis palavras, que os dois anteriores.
                         Ele então resolve, finalmente, parar e, apesar da forte chuva que ainda cai, ver se acha o que tanto lhe avisam.
                         Assim que pára, e desce de sua moto para verificar,descobre que sua sacola de viagem,tão cuidadosamente arrumada com suas melhores roupas-de-fim-de-semana, havia caído e ficado presa, somente pelo gancho do elástico numa extremidade à moto. Enquanto era arrastada pelas poças e lamas da estrada.
                         Ao chegar em nossa casa não havia, em sua sacola, uma só peça de roupa que não estivesse, totalmente, amarela pelo suplício dos quilômetros de barros daquela estrada.
                        


                       

                  

" SEU ZÉ DA VENDA "

                     Eu devia ter uns seis ou sete anos, e morava numa pequena cidade do interior de Minas.
                     Em nossa rua havia, mais ou menos, umas onze crianças numa mesma faixa de idade.
                     Fazíamos muito barulho naquela rua descalça, empoeirada e comprida.
                     Nesta nossa rua havia uma pequena mercearia, que à época todos chamavam de "venda".
                     O dono desta venda era o "seu" Zé.
                     "Seu" Zé tinha um filho, o Toninho, que beirava os quatro anos. E que,volta e meia,o incluíamos em nossas brincadeiras.
                     Toninho era muito querido por todos nós.
                      "Seu" Zé, todas as quintas-feiras, reunia a molecada em frente à sua venda, e distribuía ora balas, ora chicletes, para todos.
                      Isso, lógico, nos fazia mais ainda gostar de ter o Toninho brincando conosco.
                      Pelo lado de "seu" Zé, as guloseimas eram somente pelo prazer de ver o sorriso de alegria,  nos rostos das crianças.
                      Certo dia "seu" Zé tirou férias e foi passear com a família.
                      Passado alguns dias, nossos pais nos falaram que "seu" Zé, e "dona" Marta,sua espôsa, estavam voltando do passeio. Mas, que evitássemos fazer algazarra em frente à casa/comércio deles. Pois, durante a viagem, o Toninho havia se afogado na praia
                      "Seu" Zé, e "dona" Marta voltavam sós... e muito tristes.
                       Durante toda a semana seguinte ,à chegada deles, fizemos silêncio não somente em frente à casa mas, em toda a rua.
                       Íamos à outra rua, a rua do Marquinhos, para brincarmos.
                       Na quinta-feira, como era já nosso costume, fomos para a frente de sua venda e o chamamos.
                       Ele apareceu. Estava com um ar triste, e abatido.
                       "Dona" Marta vinha logo atrás.
                       Ainda assim, ele trazia às mãos, um pacote de balas.
                       Derrepente parou ao reparar que,em cada uma de nossas pequenas mãos, estendidas à ele, haviam duas balas para presenteá-lo..., e vermos, novamente em seu rosto, o sorriso de feliciade ao qual estávamos acostumados.
                       Às suas costas ,vimos surgirem lágrimas aos olhos de "dona" Marta.
                       "Seu" Zé nos olhou, e suspirou fundo.
                       Um suspiro que veio do fundo da alma.
                       Uma lágrima rolou pelo seu rosto.
                       Num agradeimento mudo, e emocinado, nos abraçou.
                       Também nós nada dissemos. O abraçamos também.
                       Sabíamos, e compartilhávamos de sua dor pela perda de nosso pequeno amigo.

"SOLIDÃO"

O apartamento,
Um dois quartos frente à praia.
Impecavelmente arrumado.
Até o pequeno aquário com o peixinho dourado,
Sobre a mureta da pequena cozinha,
Compunha  muito bem com a decoração.
Uma suave música embriaga o ambiente.
Na sala,
Wisk à mão,
Ela caminha,por entre os móveis...frios.
Ansiosa.
Como a esperar por alguém.
Mas, ela sabe que não há ninguém por quem esperar.
Seu pensamento vagueia.
Voa, e revoa, aos tempos de juventude.
Tempo em que foi feliz.
Páginas amareladas pelo tempo.
Vai  até a varanda.
Debruça ao parapeito.
Com um olhar vazio,
Fita a escuridão da noite,
A olhar o mar.
Cruza novamente todo o pequeno apartamento.
Quantas e quantas vezes já o cruzou esta noite.
E tantas outras, como esta.
Suspira.
Novo wisk ao copo.
Quarto ou quinto,
Não importa.
Quem se importa?
O som das ondas a quebrarem nas areias da praia,
Se mistura ao burburinho das pessoas que circulam pelo calçadão.
Uma leve brisa invade o apartamento.
Lhe afaga o rosto.
Lhe acende,ainda mais, as lembranças.
Lhe afoga as mágoas.
Novo suspiro.
O wisk, agora,
Já lhe norteia o pensamento.
Apaga as luzes.
No aparelho um som de Buarque.
Se conforma...
Se recolhe.
Mais uma vez
O vazio da solidão.

"APRENDENDO COM OS PEQUENOS ANIMAIS"


Há alguns pequenos animais que, para se preservarem de serem devorados por predadores, inflam partes de seu corpo para parecerem maiores, assustadores; e assim escapam da fatalidade iminente.

Vivi situação semelhante quando servia o exército.

Havia lá um rapaz que, quando se apresentou para a seleção, arrumou mil e uma desculpas para não servir. Porém, como ele já estava se apresentando com três anos de atraso, foi recrutado.
Aquele recrutamento o deixara insuportavelmente anti-social.

Se estávamos em formação no pátio, ele caía na porrada com quem estivesse mais próximo. Motivo? Queria ser expulso.

Brigava no banheiro, no campo, no alojamento, no refeitório… e foi justamente neste último – no refeitório – que percebi que chegara a minha vez. Minha tão temida vez.

Visualize esta imagem: o cara era maior que eu; um pouco mais forte; mais velho três anos – o que lhe dava mais malícia e experiência em brigas – e, para complicar, não estava nem aí se iria bater ou apanhar. Ele só queria ser expulso.

Pois bem. O filho da mãe veio sentar-se exatamente à minha frente para almoçar. Sem talheres.

De repente, ele esticou o braço para se apropriar dos meus talheres.

Pensei então na estratégia dos pequenos animais, citados no início do texto, e arrisquei. Embora soubesse que, se não funcionasse, eu não seria devorado, mas com certeza tomaria um cacete daqueles.

Numa fração de segundo fiquei de pé, apanhei a faca, aproximei do rosto dele e, encarando-o de cima pra baixo – pois ele não teve tempo de se levantar – pegando-o de surpresa, lhe disse: “Nunca mais tente pegar algo meu sem me pedir”.

Depois de alguns longos segundos aguardando a primeira porrada que viria – mas não veio – sentei-me e iniciei o meu almoço, sempre com atenção nele.

Durante todo o ano não houve outro atrito entre nós, nem olhares tortos.

Aprendi, naquele dia, que não importa o quão valentes os outros – ou uma situação adversa -  possam parecer; é só “colocar-se de pé” e encarar com coragem, determinação, atitude… e uma pontinha de receio, pois o receio – ou medo, se assim preferir chamá-lo – o fará ser cauteloso e atento às pequenas surpresas.

"O LEPROSO"

Há algum tempo atrás, eu estava numa pequena cidade do interior baiano, e morava numa pensão onde dividia o quarto, que era composto de três beliches, com outros “aventureiros”, que ali estavam com o mesmo objetivo meu: arrumar emprego em uma das várias firmas que ali se instalavam.

Como toda cidadezinha do interior, esta também tinha uma pracinha central, onde haviam vários bancos, com árvores lhes emprestando suas sombras.

Havia também, espalhados por alguns pontos da praça, alto-falantes, que divulgavam as notícias locais e musicas, que sempre um alguém oferecia para outro alguém.

Escolhi um desses bancos, onde um senhor já se encontrava, solitariamente, sentado.

Era final de tarde. Cumprimentei-o. Sentei-me e abri o livro que trazia comigo.

Antes de começar a lê-lo, percebi que este senhor parecia um pouco incomodado com minha presença ali.
Para “quebrar” aquela situação, perguntei-lhe se gostava e ler; para minha surpresa, ele me disse que havia sido professor, mas, com a doença que lhe tomara o corpo – a “lepra”; bastante perceptível, por sinal – teve que abandonar a profissão, perdeu os amigos e a família. Fora abandonado e esquecido por todos.

Conversamos por um bom tempo, e ele me confessou estar surpreso por eu ter me sentado ao seu lado, já que a maioria das pessoas procurava evitá-lo.

Respondi-lhe que havia sim notado as marcas em seu corpo, mas tinha ciência de que sua doença não era contagiosa, e, colocando minha mão em seu ombro, disse que pior que as marcas no corpo, são as marcas que um ser humano infringe estupidamente ao outro, resultante de  sua ignorância.

Neste momento, seus olhos encheram-se de lágrimas. Vi em seu rosto uma expressão de profundo agradecimento, que jamais tinha visto, ou voltei a ver em alguém, somente por ter-lhe compartilhado um pouco do meu tempo.

Conversamos algumas vezes, e pude perceber que, com o decorrer dos dias, dois de meus companheiros de quarto pediram para levarem seus beliches para outro quarto, pois temiam que eu estivesse contaminado.

Ah! Pobres seres humanos.

"APENAS UM CONTO DA INFÂNCIA"

Tive uma infância muito rica em vivência e convivência.

Morei em várias cidades; estudei em diversas escolas; tive muitos amigos, primos e irmãos, com os quais brincava e aprontava.

Uma coisa em que eu era “mestre” era atirar pedra com a mão e acertar alvos que estavam distantes.

Não me importava se os alvos eram do reino mineral, vegetal ou animal (mesmo que neste estejam inclusos os humanos).

Certa vez jogávamos bolinha-de-gude na rua de casa, com a molecada, quando, derrepente, um dos moleques, que perdia suas “preciosas” bolinhas-de-gude para meu irmão, o empurrou, derrubando-o. Apanhou as bolinhas e saiu correndo para sua casa.

Sem pestanejar, apanhei uma das bolinhas que restaram no chão e arremessei em sua direção.

Ele já havia percorrido uns quarenta metros, se econtrando ao portão de casa, quando a bolinha atingiu sua cabeça.

Parou sua corrida e chorou tão alto que algumas mães saíram para ver o que acontecera (inclusive a mãe do dito cujo, em defesa de seu “filhote”).

Resultado: Minha mãe quase bateu na mãe do garoto, pelo escândalo que ela fez por uma situação tão normal e corriqueira dos meninos da nossa rua.

Entrei em casa me sentindo “O Vitorioso”, afinal, havia defendido e vingado meu irmão mais velho.

É, amigo, as crianças são mesmo seres muito inocentes, pois, ao entrar em casa, só faltou eu apanhar com “havaiana de pau”, porque a de borracha comeu solta em minhas pernas, e minhas inúteis mãos, que tentavam evitá-las.

Por qual motivo? Parar com a mania de arremessar pedras em tudo por qualquer razão que eu achasse justa.

Infelizmente, muitas outras chineladas me aguardavam na minha infância, pois a mania nunca saiu de mim. Como sairia, se ela era minha melhor defesa? Mantinha o adversário distante.

Na pedrada e na corrida, eu era praticamente insuperável.